segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Quem as controla?

Foto: Afonso Francisco/Novo Jornal

Em Luanda, as motos não se submetem ao Código de Estrada.
Não obedecem a regras.
Só à vontade de quem as conduz.
E parece que vivem num mundo à parte.
É vê-las a circular no asfalto,
nos passeios,
e nos locais destinados exclusivamente a peões.
Elas passam sinais vermelhos,
nas barbas da polícia, que nem pestaneja à sua passagem.
Andam em contramão, até nas vias de sentido único,
e surgem de qualquer lado, mesmo dos mais inusitados.
Circulam com mais do que um passageiro - às vezes dois, às vezes mais - sem qualquer acessório de segurança, como o capacete que, segundo o novo Código de Estrada, é obrigatório.
Acessório, aliás, que para os motociclistas não passa de um adereço, sujeito a modas, como a que agora está em voga: o capacete de cavaleiro.
É um adereço bonito, mas numa moto não serve para nada, para além de segurar o penteado.
Em Luanda, as motos são mais perigosas e letais do que qualquer outro veículo que com elas disputa o asfalto.
E matam muitos jovens.
Porque não há quem as controle.
Só não percebo porquê?

sábado, 31 de julho de 2010

Reconstrução? (crónica publicada no Novo Jornal)

Uma auditoria federal ao fundo para a reconstrução do Iraque, criado há seis anos, pelo Conselho de Segurança da ONU, deixa o Pentágono em maus lençóis. E põe em evidência o fracasso da intervenção militar, em 2003, que não passou de uma invasão premeditada e com fins diferentes dos que foram proclamados, como testemunhou uma vez mais Hans Blix, um dos maiores opositores à guerra do Iraque.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

António Feio (1954-2010)


Há figuras que nos pertencem pelo bem que nos fazem.
António Feio era uma delas.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Desafio imbecil e criminoso.

Três jovens do bairro de S. Paulo, Sambizanga, foram desafiados a beber 45 garrafinhas de whisky, em troca de dois mil kwanzas (o equivalente a 10 euros).
Antes de chegarem às 30 garrafas, dois tombaram mortos.
O terceiro entrou em estado de coma.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Grávidas fora da escola

Em Luanda, há uma escola - o Instituto Médio Politécnico do Sambizanga - que manda as grávidas para casa.
Por estarem grávidas.
Só regressam para fazer provas ou depois de terem o bebé.
Sempre que há suspeitas, a aluna é convocada ao gabinete do director; fazem-lhe um exame; e, se for confirmada a gravidez, vai para casa.
O director diz que não as proíbe de frequentarem as aulas.
Que as aconselha a ficarem em casa.
Para as ajudar.
Porque as "grávidas têm a mania de estar sempre a salivar e a levantar-se para ir à casa de banho" e, por isso, "não conseguem prestar atenção às aulas".
A directora nacional para o Ensino Geral diz que nenhum director de escola tem competência para suspender uma aluna em situação de gravidez.
E que este facto vai contra os princípios do programa de educação sexual que o ministério vem levando a cabo desde 2006.
Mas o que o Instituto Médio Politécnico do Sambizanga faz é mais grave.
Comete várias ilegalidades: obriga alunas, algumas maiores de idade, a fazerem testes médicos, quando só um juiz está habilitado a fazê-lo; impede que a estudante exerça um direito que é seu: frequentar a escola; e prejudica o seu percurso académico.
Por coerência, não resta ao Ministério da Educação outra alternativa senão mandar o director para casa.
Porque tem a mente estéril de sabedoria e grávida de preconceitos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Mudar de nome (crónica publicada no Novo Jornal)

Os teóricos do PSD de Pedro Passos Coelho têm um dilema em mãos.
Não. Não é a proposta de revisão constitucional apresentada pelo seu líder, mas decorre dela.
O partido português vai ter de rever o seu nome ou então, se quiser manter as siglas, deve fazer ajustes que não ponham em causa a seriedade dos seus dirigentes, os actuais, é claro, sob pena de serem acusados de não conhecer a história da organização.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Se as árvores falassem...









Fotos Carlos Alberto Henriques «Cabeto»,
no Dombe Grande

Se as árvores falassem contariam histórias:
de vidas que espiaram;
rostos que abrigaram;
amores que recolheram;
lágrimas que esconderam;
corpos que refrescaram;
silêncios que aconchegaram;
conversas que ampararam;
envelhecimento que acompanharam;
murmúrios que só elas ouviram e que se falassem contavam.
Se as árvores…

terça-feira, 20 de julho de 2010

O cobrador de fraque (2)

E não é que isto está mesmo tudo ligado!
Em Maio deste ano, o ministro português das Obras Públicas, António Mendonça, ouviu alguns empresários lusos em Luanda a queixarem-se e a equacionarem a possibilidade de pararem as obras que tinham em Angola caso o Estado angolano não começasse a pagar a dívida.
O ministro, num encontro organizado pelo AICEP, optou pelo optimismo, realçando que os problemas tinham uma "natureza conjuntural".
E lembrou que duas semanas antes, o ministro das Finanças português, Teixeira dos Santos, esteve em Angola a trabalhar com o seu homólogo angolano na operacionalização de uma linha de crédito, no valor de 500 milhões de euros, criada em 2009 e que, segundo o titular da pasta das Finanças, iria "finalmente" ser activada e usada por Angola para essencialmente pagar às constructoras.
Depreendo, portanto, que essa linha esteja "finalmente" operacional e que o Estado português, perdão, angolano vai começar a pagar às empresas portuguesas.
Fico na dúvida, porque isso José Eduardo dos Santos não disse.
E Cavaco Silva também não.

O cobrador de fraque (1)


Não resisti a publicar esta imagem, que me enviaram do blogue, http://www.wehavekaosinthegarden.blogspot.com/.
O Presidente da República português, Cavaco Silva, chegou a Luanda e foi brindado com a garantia do seu homólogo angolano, José Eduardo dos Santos, de que a dívida às empresas lusas vai começar a ser paga. 
800 milhões serão pagos até daqui a dois meses.
O restante dos perto de 2 mil milhões de euros em dívida às empresas portuguesas (muitas delas entraram em colapso, entretanto), no total de 6,8 mil milhões da dívida angolana, é para ser saldado de forma escalonada.
A promessa do Estado angolano não é nova, mas anunciada pelo Presidente José Eduardo dos Santos tem outro impacto e é um trunfo que Cavaco Silva leva para a sua corrida a novo mandato.
Isso mesmo foi interpretado por muitos dos que vivem em Angola. 
É que sobre a dívida do Executivo de Eduardo dos Santos às empresas angolanas nem uma palavra.
Há muitas em estado de asfixia e muitos empresários chocados com a omissão, como comentou esta manhã um colega do jornal.
Um amigo dele tem uma empresa a quem o Estado deve milhões de dólares.
Por falta de liquidez, há salários em atraso desde Janeiro.
Por causa disso, amontoam-se os processos em tribunal movidos por funcionários que querem receber os salários a que têm direito porque precisam deles para sobreviver.
E a empresa está quase a fechar as portas porque não sabe como pagar, se a ela própria "não lhe pagam".
Como costuma dizer um amigo meu: "Isto está tudo ligado!".
Já agora, deixem ficar o fraque para que alguém em Angola o vista.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Candongueiros (3)




Os candongueiros transportam histórias, filosofias de vida. E dizem muito sobre quem os conduz.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Paulo Flores



É difícil encontrar músicas de Paulo Flores no youtube, é pena.
Paulo Flores representa, para mim, a música de Angola.
O Semba puro, sem interferferências do zouk (estilo musical das Antilhas que está a contaminar a música africana, como praga).
O Semba cantado de forma contemporânea e com aquele timbre tão característico de Paulo Flores, único, cintilante, que dispensa qualquer outro instrumento que não seja a voz.
Paulo Flores canta, no domingo, no Estádio dos Coqueiros, em Luanda, ao lado da fadista Mariza, do angolano Big Nelo e da banda NSoulFamily, no Concerto Angola - Portugal.
O concerto, organizada pela Embaixada de Portugal, marca o início da visita de Estado do Presidente da República de Portugal, Cavaco Silva, a Angola. As receitas revertem a favor do Hospital Pediátrico de Luanda.

Luanda dá $orte...


















... mas só a alguns. Muito poucos!

Prisioneiros (crónica publicada no Novo Jornal)

O primeiro grupo de sete presos políticos libertados pelo regime de Raul Castro, num total de 52 que sairão das cadeias cubanas nos próximos meses, pisou solo espanhol na terça-feira, dia 13, e já foi tarde.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Guerra nas estradas


Na Angola em paz há uma guerra, sem causa, que é travada nas estradas.
Todos os dias morrem, em média, 50 pessoas, segundo estimativa avançada há um ano pelo director Nacional de Viação e Trânsito, Inocêncio de Brito.
As estradas melhoraram, a estatística da sinistralidade não.
Pelo contrário.
São 18 mil 250 mortos por ano. Sem contabilizar os feridos graves, que resultam mais tarde em morte, os estropiados, os que ficam incapacitados e os que vivem na dor. 
A sinistralidade rodoviária é a segunda causa de morte em Angola, só superada pela malária.
Mata mais do que a guerra pelo poder.
É uma guerra sem quartel.
Não conhece tréguas.
Não respeita convenções.
Não discrimina vítimas. Mata adultos, crianças, bebés, chefes de família, desempregados, mães.
Mas tem um rosto: o da irresponsalidade.
Foi ela que há um ano matou a Cristina.
Uma das pessoas que me fazia sentir em casa.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

À margem do mundial (crónica publicada no Novo Jornal

Espanha e Holanda vão disputar pela primeira vez a final de um mundial de futebol.
A Holanda passou o teste frente ao Uruguai, fazendo recordar os tempos da selecção, que continua laranja mas foi perdendo a mecânica, dos mundiais de 1974 e 1978.
A Espanha bateu a selecção alemã, tida como a mais forte candidata ao título, por causa do polvo. Sim. Isso mesmo, o polvo. Não o da máfia calabresa que deu má fama ao molusco, mas Paul, um polvo adivinho do aquário Sea Life, na cidade alemã de Oberhausen.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Verso sem rima

Os governadores provincipais de Benguela, Cabinda e Huíla impediram que manifestações da sociedade civil se realizassem. O Presidente do Tribunal Constitucional, Rui Ferreira, desautorizou-os e disse que era proibido proibir porque a lei sobre o direito de reunião e manifestação não estabelece a obrigatoriedade de existir prévia autorização administrativa.
O economista angolano Alves da Rocha disse, numa entrevista a um jornal brasileiro, não acreditar na lei da probidade pública e na tolerância zero à corrupção e ao enriquecimento ilícito porque, justificou, o "MPLA criou uma teia, laços entre os dirigentes em que ninguém fala do outro. Porque se alguém um dia falar, vão-se todos. Porque as relações são umbilicais". Depois da entrevista Alves da Rocha deixou de ser consultor do Ministério das Finanças. Foi dispensado.
A segunda situação não rima com a primeira.
É pena.
Devia rimar para que o verso ficasse perfeito.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Dupla de luxo



Dois monstros da música africana. Youssou N'Dour, do Senegal, Rokia Traoré, do Mali. Uma dupla de luxo. Duas vozes abençoadas.

Na estrada

Nos quase 700 quilómetros de estrada que ligam Luanda ao Huambo há vida, natureza, perigo, trabalho, imponência, contrastes, céu, sacrifício, beleza, transgressão, sorrisos, caminho a perder de vista e piscadelas de olho.

































Não se desenvolve um país com magia

Foto: Afonso Francisco/Novo Jornal
Paul Krugman esteve em Angola para participar numa conferência, organizada pelo BPC e o Facide, subordinada ao tema «Como construir uma economia forte».
Com a frontalidade que o caracteriza, o Nobel da Economia de 2008 não dourou a pílula e qualificou Angola como "pobre" porque "um país com carências na saúde e na educação não pode ser desenvolvido".
O desenvolvimento de um país "não se faz com magia", mas com pragmatismo e humildade na governação, afirmou o economista norte-americano, conhecido por defender a economia social.
Krugman deixou claro que o dinheiro arrecadado com a venda do petróleo deve ser investido na saúde e na educação, por serem os sectores que garantem a estabilidade social e contribuem para diminuir a pobreza.
Tudo o resto é efémero e não chega a todos, tendo como consequência um país "tremendamente assimétrico", como constata o economista angolano Justino Pinto de Andrade, na sua crónica «Rios de Tinta», publicada no semanário «A Capital».
"(...) Se somos ricos, será apenas no potencial.
Na realidade o nosso país é pobre, demasiado caro, muito desigual, tremendamente assimétrico, e bastante penalizador para os seus segmentos mais desfavorecidos".

domingo, 4 de julho de 2010

No dia de Cabo Verde



Cabo Verde comemora amanhã, 5 de Julho, 35 anos de independência.
Altura ideal para evocar aquela que é para mim a voz de Cabo Verde: Ildo Lobo.
Ouvi-o pela primeira vez em Outubro de 2004.
Impressionou-me aquela voz;
impressionou-me a postura ;
impressionaram-me as mornas que saíam daquele corpo vestido de negro (era assim que ele se apresentava em palco: roupa preta; a mão direita no bolso das calças).

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Hospital doente

Luanda precisa de hospitais.
A cidade tem milhões de pessoas (mais de quatro, segundo as estatísticas, mas podem ser nove milhões) a quem é preciso tratar da saúde.
Há quatro anos, inaugurou-se um novo hospital público.
O Hospital Geral de Luanda foi construído com oito milhões de dólares, financiados pelo governo da República Popular da China.
Tem capacidade para internar 100 doentes.
Dava guarida a mais de 150.
Ontem começou a ser evacuado.
Vai fechar as portas.
As paredes cederam.
Algumas das fissuras que começaram a insinuar-se, logo após a inauguração do edifício construído por uma empresa chinesa, escancararam.
Abriram janelas para a rua.
Técnicos do Ministério do Urbanismo e Construção foram ao local e recomendaram a evacuação urgente.
A Governadora Provincial de Luanda, Francisca do Espírito Santo, mandou executar a ordem.
Os doentes foram transferidos para outras unidades, já saturadas.
Agora todos se interrogam:
Como foi isto possível?

Uma história de Paulo Jorge


Não encontrei melhor forma para assinalar a partida de Paulo Teixeira Jorge, nacionalista angolano que foi ontem a enterrar, do que publicar excertos do texto «A Balalaica Branca» de Jaime Azulay, correspondente do Jornal de Angola em Benguela, porque as histórias contam os homens.
A «Balalaica Branca» é um diálogo entre dois chefes militares, durante um tiroteio à cidade de Benguela, na altura em que Paulo Jorge era governador da província.
Pena que o deputado, que desempenhava actualmente as funções de secretário do MPLA para as Relações Exteriores, não tenha deixado as suas memórias, como “prometeu que em breve faria”, porque as lembranças que “iria deixar eram fundamentais para perceber o que foi a diplomacia da fase de gestação e debutante da República Popular de Angola”, assinala Fernando Pereira, no Novo Jornal.
“Com Paulo Jorge desapareceu uma parte do espólio, de um tempo em que a afirmação de valores de solidariedade, de justiça social e igualitarismo faziam parte do léxico, e de alguma prática das nossas convicções pessoais e políticas”, justifica o cronista.
“Paulo Jorge morreu a 26 de Junho, sabendo-se que sem grandes recursos, e com ele fica o exemplo de um homem fundamental nos alicerces do País e indispensável no colocar de tijolos da edificação de uma nova geografia política na África Austral”.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Não ver Saramago (crónica publicada no Novo Jornal)

Na terça-feira em conversa, on-line, com um amigo jornalista ele contou-me uma história que viveu com José Saramago.
O escritor falecido há uma semana tinha ido a Viseu lançar um dos seus livros, numa iniciativa organizada pelo Sindicato dos Professores da Região Centro, no final da década de 90.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Maternidade próxima


Fotos: Carlos Alberto «Cabeto»

Em África mãe e filho andam sempre juntos. É uma proximidade prática, nem sempre fácil para um e para outro, mas sempre benéfica para ambos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Senhora da música do Mali


É uma das grandes senhoras da música do Mali, país donde provém, segundo alguns estudiosos, o ADN do blues.
Cantora, compositora e guitarrista, Rokia Traoré é filha de um diplomata que lhe abriu caminho a várias influências captadas nas muitas viagens que a família fez, mas a tonalidade da sua música pertence, sem margem para dúvida, ao Mali, sendo visíveis as influências que Ali Farka Touré (outro génio da música africana) teve no seu percurso.
Membro do grupo étnico Bambara, Rokia ganhou em 1997 o prémio  revelação africana, atribuído pela Radio France Internacional.
O seu primeiro álbum «Mouneissa», gravado nesse ano, foi aclamado pela forma como Traoré combinou várias tradições musicais malianas, como o ngoni e o balafon, e foi um sucesso de vendas na Europa.
O seu segundo disco«Wanita» foi considerado pelo «The New York Times» como um dos álbuns do ano de 2000.
A consagração internacional começava a cimentar-se e, em 2009, a cantora ganhou na categoria de Melhor Artista na sessão inaugural do Songlines Music Awards, organizado pela revista britânica «Songlines».
Este tema foi extraído do seu quarto álbum, gravado em 2008, «Tchamantché».
É um prazer ouvi-la.

O pôr-do-sol a caminho do Huambo



Em África o sol, quando se põe, tem tonalidades que vão do amarelo ao vermelho vivo, mas não se deixa apanhar. Fez fintas à máquina e ganhou.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Entrevista a Saramago





































Em Novembro de 2003 tive oportunidade de entrevistar José Saramago, após uma visita a Pinhel, pequena cidade do distrito da Guarda, no interior de Portugal.
Na entrevista ao Jornal do Centro  (semanário publicado em Viseu, do qual fui directora e que em 2004 ganhou o prémio Gazeta Imprensa Regional, atribuído pelo Clube de Jornalistas ao melhor jornal regional do país), Saramago revela a dimensão do Homem que era.

domingo, 20 de junho de 2010

Eterno Saramago


Quatro dias de refúgio no Huambo - cidade massacrada durante a guerra, hoje em notável recuperação – afastaram-me das notícias.
E foi com surpresa e pesar que, à chegada a Luanda, recebi a notícia: "Morreu (José) Saramago.
Gosto de Saramago e basta-me isso.
Não é de hoje (na morte o coro dos elogios sobe de tom com uma força desconcertante), é de sempre.
Desde que o comecei a ler.
O Nobel da Literatura deu-lhe maior visibilidade e ofereceu-me um novo impulso para me embrenhar na obra do autor de «Levantados do Chão».
Não gostei de tudo o que li, como não gostei de todos os livros de outros autores, mesmo daqueles que estão no topo do topo das minhas preferências.
Mas identifiquei-lhe sempre um traço próprio e uma forma única de, nas suas reflexões, interpelar o leitor e reconheci-lhe em todos os momentos legitimidade para falar, para elevar a sua voz contra as injustiças do mundo ou para defender o que lhe parecia justo.
Por isso, foi sempre com incómodo que vi Saramago ser injustiçado, não criticado, porque a crítica faz-se com argumentos e no meio das polémicas em que o Nobel da Literatura português se viu envolvido encontrei sempre muito pouca ponderação e razoabilidade, salvo algumas excepções.
A última dessas polémicas andou à volta de declarações de Saramago sobre o seu livro «Caím».
Custou-me a dureza das palavras com que se lhe dirigiram; feriu-me o ódio que vi plasmado em muitas das reacções; e pesou-me o desrespeito que, uma vez mais, senti em relação a uma das personalidades portuguesas que mais longe e mais alto elevaram o nome de Portugal e a língua portuguesa.
O episódio serviu de pretexto ao Paralelos que escrevi, na edição 92 do Novo Jornal, publicada a 23 de Outubro de 2009 (que republico neste blogue).
Hoje recuso comentar a ausência das duas mais altas figuras de Portugal - Presidente da República e Presidente da Assembleia Nacional - no funeral do autor de «Todos os nomes».
Limito-me a um até sempre Saramago.
Porque é dos poucos portugueses com direito à imortalidade.

Come chocolates, come (crónica publicada no Novo Jornal)

Passei a infância a ser reprimida – “Não comas chocolate, olha que faz mal aos dentes”. Entrei na adolescência a ouvir: “Não comas chocolates que provoca borbulhas”. Na maioridade o vaticínio repetiu-se até à náusea – “Não comas chocolate, não vês que engorda”.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O porteiro


Por causa do álcool, o porteiro entrou num sono profundo... perdeu a consciência e o portão.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A espera


No Sango, província do Uige, a chegada de um político é aguardada com... expectativa.

A maior...



O recorde para a boca mais larga do mundo pertence a um angolano.
Francisco Domingos Joaquim tem o feito inscrito no livro Guiness World Record graças às suas medidas generosas: 17 centímetros de largura e 25 centímetros de comprimento, devidamente certificadas por testes médicos.
O jovem de 20 anos consegue colocar e retirar da boca uma lata do refrigerante nacional «Blue», pelo menos, 14 vezes num minuto, como demonstrou em Roma, no programa onde todos os anos são apresentados os novos recordes mundiais.
Chiquinho, como é conhecido, ganhou em audiência – o jovem foi descoberto numa das exibições que faz nos bairros e nos mercados de Luanda – mas não se pode dizer que o feito seja digno de registo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mingas de ouro



O Homem é voz;
o Homem é verbo;
o Homem é alma.
Ruy Mingas foi homenageado no dia 5 de Junho, em Paris.
A Academia Francesa de Artes, Ciências e de Letras atribuiu-lhe a medalha de ouro para estrangeiros pelo seu contributo artístico, por ter musicado muitos dos poemas escritos num contexto histórico de luta contra o colonialismo e de luta pela independência de Angola.
O seu nome está ligado a muitas das músicas que fazem o cancioneiro angolano e português. «Os meninos do Huambo», que Paulo Carvalho celebrizou em Portugal, é apenas um exemplo. Muitos outros têm a sua assinatura.
“Sinto-me particularmente orgulhoso pelo meu país – afirmou numa entrevista ao Novo Jornal - porque não foi Ruy Mingas, uma figura abstracta que foi galardoada, mas sim o cidadão de Angola cuja obra é um pouco esquecida no meu país de origem, mas foi reconhecida por uma organização académica da dimensão desta associação e de um país, que não é só uma potência mundial, mas tem um peso significativo em termos culturais em todo o mundo”.
Homenageado em França, nunca no seu país.
Ruy Mingas já se surpreendeu por esta omissão.
Hoje está “completamente indiferente” por “nunca” ter sido “sequer referenciado” por tudo o que fez pela música angolana.
O seu lugar na História cultural e política de Angola está assegurado, o seu legado também.
E, essas, são homenagens bastantes, capazes de derrubar a indiferença dos que têm efemeramente o poder.

Sem sinal

“O Internet Explorer não consegue mostrar a página Web” é a frase mais assídua nos ecrãs dos computadores por estes dias.
A internet em Luanda - já para não falar nas outras províncias - tem altos e baixos, que tornam impaciente a “condução” na auto-estrada da informação, sobretudo quando a falta de tempo exige rapidez nas manobras.
Nas últimas semanas, o tráfego tem sido constantemente interrompido.
E a paciência esgota-se com uma velocidade proporcionalmente inversa à do serviço disponibilizado pelas empresas que em Angola oferecem o sinal.
Oferecem, é como quem diz.
Vendem e a um preço elevado.
Elevado demais para um sinal tão fraco.

domingo, 13 de junho de 2010

A outra



No ano passado, quando se discutia a nova Constituição de Angola, o partido Nova Democracia sugeriu a inclusão da poligamia na nova Carta Magna angolana.
A razão era a aceitação informal da "outra" nas relações afectivas.
A música de Matias Damásio foi usada como argumento por Quintino Moreira, o líder da coligação que surgiu nas eleições legislativas de 2008 e que, apesar da «juventude», conseguiu arrebatar alguns lugares no parlamento.
A proposta da Nova Democracia acabou por cair por falta de apoios.
O MPLA, partido esmagadoramente maioritário, refugiou-se no silêncio; os restantes nem sequer se pronunciaram.
A poligamia não foi institucionalizada, mas as outras continuam a fazer parte do quotidiano dos casais, porque aceitando-se uma há que manter a porta aberta para as que vierem a seguir...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Zé Manel em dose dupla





Ando há anos à procura de discos de Zé Manel, músico da Guiné Bissau radicado nos Estados Unidos da América e não encontro.
Uma voz única e inconfundível, que integrou a primeira formação do grupo guineense Super Mama Djombo, e uma das melhores de África.
O primeiro tema, cantado em inglês, é um hino aos governantes africanos para que expurgem do continente os males que o adoecem. No segundo, Zé Manel canta as filhas do seu país na sua língua materna, o crioulo.

Ganância (crónica publicada no Novo Jornal)

 Bernard Madoff, o especulador norte-americano que precipitou para a ruína três milhões de investidores em todo o mundo com o maior esquema em pirâmide Ponzi de todos os tempos, confidenciou a um parceiro de reclusão que não tem pena das suas vítimas, porque “eram ricas e gananciosas”.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A ilha de Amílcar Cabral na voz de Margareth



ILHA

Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

Um poema de Amílcar Cabral, escrito em 1945, na cidade da Praia, Cabo Verde, que a cantora angolana Margareth do Rosário levou para o seu último disco, dando uma «Nova Dimensão» ao legado literário de um lutador pelas independências africanas.
A memória transmitida de forma refrescante.
A minha comemoração do Dia de Portugal, porque exaltar a Nação Portuguesa é celebrar as independências de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e S. Tomé e Principe.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Armas a mais

Em Luanda há armas a mais.
A polícia tem armas,
Os militares têm armas,
Os ladrões têm armas,
Os vigilantes e guardas das empresas de segurança têm armas,
Os cidadãos têm armas, menos 70 mil desde que o governo lançou a campanha de desarmamento, mas continuam a ter muitas.
A campanha de desarmamento dos civis vai continuar por mais dois anos e até lá o ministro do Interior, Roberto Leal Monteiro, espera recolher as mais de 25 mil armas de guerra que estão na posse das empresas de segurança privada.
É bom que o faça, a bem da paisagem urbana, mas para que a campanha iniciada em 2008 surta real efeito é preciso primeiro desarmar as mentes, como canta o rapper Yannick Afroman.

domingo, 6 de junho de 2010

Beleza natural (2)

É cada vez mais difícil encontrar uma mulher de carapinha nas ruas de Luanda - as angolanas renderam-se às extensões, aptando por longos cabelos lisos ou ligeiros ondulados - mas quando se encontra vale bem a pena.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cabo Verde e Angola


Aqui estão dois músicos de excepção: Tito Paris (Cabo Verde) e Paulo Flores (Angola).
Duas bandeiras dos respectivos países que eu hasteio onde quer que vá.
E que sublinham que as fronteiras geográficas são instrumentos político-administrativos.
A música, como os cidadãos, é do mundo.

Candongueiros de Hildebrando


Hildebrando de Melo andou a pintar alguns ícones da cidade de Luanda para um projecto que desenvolveu, em 2006, na casa de cultura Brasil/Angola e nesse processo resolveu concentrar o olhar nos taxistas da capital.
“Não podiam passar despercebidos os candongueiros, que todos os dias nos entram pelos olhos”, explicou o jovem pintor, numa entrevista a Adebayo Vunge, publicada no Novo Jornal.
O resultado é uma série de quadros que reflectem bem os azuis e branco.
Está lá tudo: a confusão, o excesso de passageiros e de ruído, a anarquia, o desregramento…
Partilho da forma como o pincel de Hildebrando vê os candongueiros – “moscas” sem as quais a “natureza fica desequilibrada”, porque afinal de contas “têm uma grande utilidade pública, por transportarem a maior massa de trabalho de Angola” - a metáfora é do artista.
Porque um dia, os candongueiros irão sair de cena (o desenvolvimento do país assim o dita) fica o registo para memória futura. E bom.

Mais do que infantil (crónica publicada no Novo Jornal)

O ataque de Israel a navios com 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a Palestina revela um total desprezo por toda e qualquer vida humana que não seja a do «povo eleito», como os judeus se autointitulam por, alegam, Deus os ter escolhido para receberem as revelações da Tora (livro sagrado).

terça-feira, 1 de junho de 2010

Crianças em Angola

Rostos expressivos, cheios de vida

amizade

festa

alegria

jogo

dança