Este blogue contém as crónicas publicadas pela autora no semanário angolano «Novo Jornal».
terça-feira, 26 de abril de 2011
E depois do adeus
Soberba esta interpretação de Paulo de Carvalho, da música «E depois do Adeus», que serviu de senha à revolução que restituiu a liberdade a Portugal e abriu caminho para a proclamação da independência das ex-colónias portuguesas.
Uma canção de amor, com a qual Portugal concorreu ao Festival Eurovisão da Canção de 1974, e que se transformou num hino da liberdade.
A voz aos poetas
Na passagem de mais um 25 de Abril, a voz aos poetas.
Os políticos já nada dizem.
Só falam.
Nesta Hora
Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade
Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida
O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe
A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados
Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar
Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção –
Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
Os políticos já nada dizem.
Só falam.
Nesta Hora
Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade
Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida
O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe
A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados
Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar
Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção –
Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste
Sophia de Mello Breyner Andresen
(1919-2004)
sábado, 23 de abril de 2011
Mais um símbolo de Luanda abaixo
No largo em obras do Kinaxixi caiu mais um símbolo urbano de Luanda.
O velho e imponente logotipo da Cuca, que encimamava o prédio que adoptou o nome da cerveja angolana, foi abaixo.
Como foi o mercado do Kinaxixi, um dos símbolos da arquitectura tropical, perante os protestos populares.
Também a rainha Ginga, monárquica guerreira que lutou contra o colonizador português, foi afastada de uma das praças centrais da capital angolana que vai, pouco a pouco, apagando os traços do passado.
Esta foto de 2009, o Xinaxixi, já desfigurado, capta ainda o prédio da Cuca.
No centro, uma enorme cratera recebe os alicerces de umas torres de betão e vidro, mais umas, o novo símbolo da Luanda endinheirada, mas sem memória.
Um símbolo da megalomania de alguns dirigentes nacionais, como escreveu há um ano Pepetela, e de horror ao vazio.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
O curso da história (crónica publicada no Novo Jornal)
Regresso ao passado I
O Irão está a planear uma missão espacial que terá como principal tripulante um macaco, divulgou a agência noticiosa oficial ISNA, citando o director da Agência Espacial iraniana, Hamid Fazeli.
O Irão está a planear uma missão espacial que terá como principal tripulante um macaco, divulgou a agência noticiosa oficial ISNA, citando o director da Agência Espacial iraniana, Hamid Fazeli.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Subiu para dois o número de jornalistas mortos em Misurata
Subiu para dois o número de jornalistas mortos ontem, na Líbia.
Chris Hondros, que trabalhava para a Getty Images, não resistiu aos ferimentos provocados por um obus em Misurata e morreu pouco depois de Tim Hetherington.
O fotógrafo norte-americano, que sofreu lesões cerebrais, chegou a ser transferido para uma unidade de cuidados intensivos, mas não resistiu.
O grupo de repórteres estava a tentar sair da rua Trípoli, onde se desencadeavam combates entre rebeldes e as tropas leais a Khadafi, quando um morteiro caiu à sua frente, contou à Reuters o fotojornalista Guillermo Cervera.
“Em Misurata. As forças de Khadafi bombardeiam indiscriminadamente. Não há sinais da NATO”, foi a última mensagem que Hetherington colocou no Twitter.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Mais um jornalista morto na Líbia
O repórter fotográfico Tim Hetherington foi morto hoje a tiro de morteiro em Misrata, na Líbia.
Outros três jornalistas que cobrem os confrontos entre as forças fiéis a Muammar Kadhafi e os rebeldes ficaram feridos.
Tim Hetherington, de 41 anos de idade, trabalhava para a revista norte-americana Vanity Fair.
Jornalista de origem britânica, o repórter tinha feito a cobertura de numerosos conflitos e ganhara em 2007 o prestigiado World Press Photo Award pelas suas fotografias de soldados dos Estados Unidos no Afeganistão.
Este seu trabalho servira também de base ao documentário Restrepo, que chegou a ser nomeado para os Oscares.
Um dos jornalistas gravemente feridos é o norte-americano Chris Hondros, também de 41 anos, da agência fotográfica Getty.
A identidade dos outros dois não tinha sido divulgada a esta hora.
Tim Hetherington é o segundo jornalista estrangeiro a morrer durante o conflito na Líbia, depois de um operador de câmara da Al-Jazeera, Ali Hassan Al Jaber, ter sido abatido e um outro jornalista da cadeia televisiva ferido em 12 de Março, durante uma emboscada perto de Bengazi, bastião da rebelião.
Vários jornalistas têm sido detidos e maltratados pelo regime líbio, desde o início da rebelião em 15 de Fevereiro.
Apesar das ameaças, dezenas de repórteres mantêm-se firmes no compromisso de levar a informação, não filtrada, para o exterior, mesmo sabendo o preço que podem vir a pagar.
Os repórteres fotográficos e operadores de câmara, pela natureza do seu trabalho, estão mais expostos.
A caneta esconde-se com maior facilidade e regista mais tarde aquilo que os olhos captam.
As câmaras têm de focar a realidade que querem transmitir e, por vezes, tiros disparam na direcção delas.
Como aconteceu ontem a Tim Hetherington.
Mais um crime para a lista longa do ditador líbio.
Mais um tiro no direito de informar.
domingo, 17 de abril de 2011
O embuste continua (crónica publicada no Novo Jornal)
O “resgate desnecessário” de Portugal, depois do irlandês e do grego, “deve ser um aviso a democracias em todo o lado”, porque não é “realmente sobre dívida”.
O alerta é feito pelo sociólogo norte-americano Robert Fishman que, num artigo publicado no New York Times, afirma que Portugal foi vítima da “pressão injusta e arbitrária” dos mercados financeiros internacionais, que ameaça Espanha, Itália e Bélgica e outras democracias em todo o mundo.
O alerta é feito pelo sociólogo norte-americano Robert Fishman que, num artigo publicado no New York Times, afirma que Portugal foi vítima da “pressão injusta e arbitrária” dos mercados financeiros internacionais, que ameaça Espanha, Itália e Bélgica e outras democracias em todo o mundo.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
A verdadeira maldição (crónica publicada no Novo Jornal)
O mistério está desfeito. A alta incidência de gémeos em Cândido Godói, no Rio Grande do Sul, Brasil, tem causas naturais e não é resultado de experiências do médico Nazi Mengele, como chegou a ser sugerido. Também não tem nada a ver com uma substância presente na água, como reza uma lenda local. É, pura e simplesmente, fruto de uma herança genética, reforçada “pelo alto nível de procriação consanguínea entre a população, composta quase inteiramente por imigrantes de língua alemã”.
sexta-feira, 25 de março de 2011
O mesmo nojo (crónica publicada no Novo Jornal)
1 A organização não governamental (ONG) Paz e Vida denunciou segunda-feira junto do Ministério Público da Venezuela que agentes da polícia nacional sequestram pessoas para depois as vender à guerrilha colombiana. A morte por ajuste de contas também faz parte dos relatos.
quinta-feira, 24 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
Casamentos de conveniência (crónica publicada no Novo Jornal)
Em Março, mês dedicado a elas, as mulheres têm andado nas bocas do mundo.
A Al-Qaeda, que como se sabe tem pelas mulheres uma visão prática e utilitária, aproveitou o mês para lançar uma revista feminina.
Só que, ao contrário dos modelos ocidentais, a revista da Al-Qaeda tem como fim não as mulheres, mas aqueles cujo bem-estar depende delas.
A Al-Qaeda, que como se sabe tem pelas mulheres uma visão prática e utilitária, aproveitou o mês para lançar uma revista feminina.
Só que, ao contrário dos modelos ocidentais, a revista da Al-Qaeda tem como fim não as mulheres, mas aqueles cujo bem-estar depende delas.
quarta-feira, 16 de março de 2011
De taco na mão
Portugal é cada vez mais o país dos ricos.
Os jovens, da autoproclamada “geração à rasca”, não têm emprego e os que têm são precários.
Os de meia idade vão perdendo o emprego, as regalias que foram conquistando em anos de trabalho, e o poder de compra.
Os velhos vêem minguar a reforma, os medicamentos a aumentar de preço e os seus parcos rendimentos a serem tributados cada vez mais.
No supermercado há mais produtos a serem tributados com a taxa máxima de IVA - 23 por cento - pesando sobre os bolsos de quem tem cada vez menos para gastar.
Os ricos, esses, estão cada vez mais ricos – o país tinha dois empresários na lista da Forbes, em 2009, agora tem três e com riqueza acumulada a subir.
E a riqueza deles bem pode continuar a subir, porque o governo socialista de José Sócrates resolveu baixar o IVA do golfe – desporto praticado maioritariamente por pessoas oriundas das classes sociais com maiores rendimentos - de 23 para 6 por cento.
Está certo.
Das duas uma: ou se arrasa tudo para se transformar Portugal num imenso campo de Golfe e democratizar a prática da modalidade; ou a populaça emigra e deixa o país entregue aos golfistas.
Nada garante é que, em pouco tempo, não fiquem de taco na mão.
terça-feira, 15 de março de 2011
Na encruzilhada líbia
Fotografia de Goran Tomasevic, da Reuters
A Líbia está numa encruzilhada à espera que se decida o duelo entre Kadhafi e os seus opositores.
Enquanto a aviação do regime líbio bombardeava ontem,14 de Março, Ajdabiya, rebeldes cumpriam a sua missão, num posto de controlo nesta cidade no Leste do país, que se situa num ponto estratégico a 160 quilómetros de Benghazi, o bastião da revolta anti-Kadhafi.
domingo, 13 de março de 2011
Imprensa livre em Angola
Para os que insistem na ideia que em Angola não há imprensa livre, aqui fica, reproduzido na íntegra, o editorial do Director do Novo Jornal, Victor Silva, da edição de 11 de Março de 2011, a propósito da detenção de três jornalistas e um motorista, quando faziam a cobertura de uma manifestação anti-governamental agendada para o dia 7 de Março, mas que não chegou a realizar-se:
A Praça 1.º de Maio
Victor Silva, Director do Novo Jornal
Afinal “a montanha pariu um rato”!
Este poderia ser o título mais adequado para a pretensa manifestação contra o Governo que foi veiculada através das redes sociais e deixou muito perturbado o partido no poder, ao ponto de ter convocado uma “marcha patriótica” contra os que se “julgam mãos limpas, os mais patriotas com o apoio dos serviços de inteligência ocidentais”.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Choque de Ordem (crónica publicada no Novo Jornal)
A tolerância zero foi decretada, mas não se revelou suficiente para desmobilizar os adeptos do chichi ao ar livre no Rio de Janeiro.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Isenção, pois!
O Jornal de Angola já nos habituou à sua forma isenta e factual de fazer jornalismo.
A última pérola, escrita a quatro mãos, gira em torno da detenção na madrugada de segunda-feira de 17 pessoas, entre elas três jornalistas e um motorista do Novo Jornal.
Dizem - a Polícia Nacional e o Jornal de Angola - que a detenção do grupo teve "como objectivo evitar actos de agressão", pela “iminência de um conflito” entre este e um outro grupo de pessoas que se foi juntando no mesmo local com a intenção de os dispersar.
Muito bem. Entendido.
Depreende-se da explicação da Polícia Nacional, muito bem explanada pelo Jornal de Angola, que, na iminência do assalto a uma residência, a polícia angolana detém os donos da casa e deixa os assaltantes à solta.
Não se compreende é que para explicar esta acção preventiva, a Polícia Nacional e o Jornal de Angola tenham usado terminologia distinta, uma inócua e outra eivada de culpa.
A polícia diz que foi “obrigada a proceder à recolha dessas pessoas” e, no momento seguinte, confirma que “foram no local detidas para declarações 17 pessoas”.
Entendidos. É o registo factual e isento das duas entidades: Polícia Nacional e Jornal de Angola.
Tão isento como o Jornal de Angola se referir a Pedro Cardoso como o “jornalista português ao serviço do Novo Jornal, mas que na verdade estava a acompanhar a “manifestação” para a Rádio Renascença de Lisboa”.
Como luso angolano que é, por direito e convicção, em Angola Pedro Cardoso é angolano, como bem sabe o Jornal de Angola, por mais que diga e escreva o contrário.
E nada o impede de, ao serviço do Novo Jornal, fazer o relato de um acontecimento para um órgão de informação estrangeiro.
O que é bem diferente da frase mal intencionada e que só se entende inscrita na estratégia de manipulação do diário angolano.
PS. Pode ler a notícia do Jornal de Angola, clicando no Ler mais
A última pérola, escrita a quatro mãos, gira em torno da detenção na madrugada de segunda-feira de 17 pessoas, entre elas três jornalistas e um motorista do Novo Jornal.
Dizem - a Polícia Nacional e o Jornal de Angola - que a detenção do grupo teve "como objectivo evitar actos de agressão", pela “iminência de um conflito” entre este e um outro grupo de pessoas que se foi juntando no mesmo local com a intenção de os dispersar.
Muito bem. Entendido.
Depreende-se da explicação da Polícia Nacional, muito bem explanada pelo Jornal de Angola, que, na iminência do assalto a uma residência, a polícia angolana detém os donos da casa e deixa os assaltantes à solta.
Não se compreende é que para explicar esta acção preventiva, a Polícia Nacional e o Jornal de Angola tenham usado terminologia distinta, uma inócua e outra eivada de culpa.
A polícia diz que foi “obrigada a proceder à recolha dessas pessoas” e, no momento seguinte, confirma que “foram no local detidas para declarações 17 pessoas”.
Entendidos. É o registo factual e isento das duas entidades: Polícia Nacional e Jornal de Angola.
Tão isento como o Jornal de Angola se referir a Pedro Cardoso como o “jornalista português ao serviço do Novo Jornal, mas que na verdade estava a acompanhar a “manifestação” para a Rádio Renascença de Lisboa”.
Como luso angolano que é, por direito e convicção, em Angola Pedro Cardoso é angolano, como bem sabe o Jornal de Angola, por mais que diga e escreva o contrário.
E nada o impede de, ao serviço do Novo Jornal, fazer o relato de um acontecimento para um órgão de informação estrangeiro.
O que é bem diferente da frase mal intencionada e que só se entende inscrita na estratégia de manipulação do diário angolano.
PS. Pode ler a notícia do Jornal de Angola, clicando no Ler mais
segunda-feira, 7 de março de 2011
Medo? Não
Juntou-se a três colegas, um jornalista, um repórter fotográfico e um motorista, e foi trabalhar, nessa noite de domingo.
A polícia chegou ao local onde se reunia um grupo de jovens, que recitavam poesia, trocavam conversa e projectavam sonhos.
O grupo e os jornalistas foram questionados, rodeados, intimidados.
Ela respondeu que estavam ali a trabalhar.
O polícia mandou-a calar e ordenou que se sentasse no chão
À ordem que se seguiu, deu com ela numa esquadra, onde foi separada do grupo.
Perguntaram-lhe com que políticos da oposição privava.
Quiseram saber o que estava a fazer na praça.
Tiraram-lhe os pertences pessoais.
Vasculharam-lhe o telemóvel, viram o registo de chamadas e leram as suas mensagens.
Passada a noite, obrigaram-na a limpar a cela.
Humilharam-na, julgavam eles.
Deram-lhe guia de marcha.
Devolveram-na à liberdade.
Já na rua, deu entrevistas.
Fez a cronologia dos acontecimentos.
Disse que não, não se sentia intimidade.
Ia comer "qualquer coisa" para se refazer de uma noite sem dormir para pôr pés a caminho do jornal.
Tinha muito que fazer.
Muito que escrever.
Medo? Não.
"Isto dá-me mais força para trabalhar, para continuar", respondeu à repórter que a inquiria por telefone, a partir de Portugal.
Não era a primeira vez que passava a noite numa esquadra.
A voz de Ana Margoso não tremeu.
O pensamento não vacilou.
Reconheci a jornalista que me habituei a ver na Redacção do Novo Jornal; que sempre me tocou pela coragem e determinação.
E que, inspirada pelo exemplo do pai (general que, com outros, construiu os caminhos para a independência de Angola) também luta pelo seu país.
À sua maneira.
A polícia chegou ao local onde se reunia um grupo de jovens, que recitavam poesia, trocavam conversa e projectavam sonhos.
O grupo e os jornalistas foram questionados, rodeados, intimidados.
Ela respondeu que estavam ali a trabalhar.
O polícia mandou-a calar e ordenou que se sentasse no chão
À ordem que se seguiu, deu com ela numa esquadra, onde foi separada do grupo.
Perguntaram-lhe com que políticos da oposição privava.
Quiseram saber o que estava a fazer na praça.
Tiraram-lhe os pertences pessoais.
Vasculharam-lhe o telemóvel, viram o registo de chamadas e leram as suas mensagens.
Passada a noite, obrigaram-na a limpar a cela.
Humilharam-na, julgavam eles.
Deram-lhe guia de marcha.
Devolveram-na à liberdade.
Já na rua, deu entrevistas.
Fez a cronologia dos acontecimentos.
Disse que não, não se sentia intimidade.
Ia comer "qualquer coisa" para se refazer de uma noite sem dormir para pôr pés a caminho do jornal.
Tinha muito que fazer.
Muito que escrever.
Medo? Não.
"Isto dá-me mais força para trabalhar, para continuar", respondeu à repórter que a inquiria por telefone, a partir de Portugal.
Não era a primeira vez que passava a noite numa esquadra.
A voz de Ana Margoso não tremeu.
O pensamento não vacilou.
Reconheci a jornalista que me habituei a ver na Redacção do Novo Jornal; que sempre me tocou pela coragem e determinação.
E que, inspirada pelo exemplo do pai (general que, com outros, construiu os caminhos para a independência de Angola) também luta pelo seu país.
À sua maneira.
Porquê?
Uma manifestação em Angola contra o poder instituído foi convocada a reboque da Primavera árabe que derrubou, nas ruas, governos ditatoriais e nepóticos na Tunísia e no Egipto e tenta, a custo de muitas vidas, fazer o mesmo na Líbia.
A manifestação assentava à partida num equívoco. A realidade angolana nada tem a ver com o quadro político no magreb. E depressa o partido no poder tratou de matar, com uma contra-manifestação pela paz, a manifestação pela mudança que não chegou a ser.
Ainda assim, menos de duas dezenas de jovens responderam ao apelo. Aproveitando o palco central do largo 1 de Maio, juntaram-se para trocar versos e mensagens políticas contra o regime de José Eduardo dos Santos.
A polícia não esteve com contemplações. Encarou o acto como subversivo e deteve todos os que se concentraram na vígília nocturna. Todos mesmo. Não escapou a equipa do Novo Jornal, que se limitava a fazer o seu trabalho.
Dois jornalistas (Ana Margoso e Pedro Cardoso) um repórter fotográfico (Afonso Francisco) e o motorista que os apoiava na deslocação (Dário Pandé) foram levados pela onda repressiva. E passaram a noite numa esquadra, impedidos de comunicar com os familiares que, amedrontados com as notícias da repressão líbia, passaram horas de aflição.
Já com o grupo todo em liberdade - manifestantes e equipa do Novo Jornal - resta a pergunta: Porquê?
Não há argumento que legitime uma atitute tão disparatada da polícia angolana.
Nem regime, por mais democrático que seja, que resista à erosão provocada pela detenção de jornalistas e gente pacífica.
A manifestação assentava à partida num equívoco. A realidade angolana nada tem a ver com o quadro político no magreb. E depressa o partido no poder tratou de matar, com uma contra-manifestação pela paz, a manifestação pela mudança que não chegou a ser.
Ainda assim, menos de duas dezenas de jovens responderam ao apelo. Aproveitando o palco central do largo 1 de Maio, juntaram-se para trocar versos e mensagens políticas contra o regime de José Eduardo dos Santos.
A polícia não esteve com contemplações. Encarou o acto como subversivo e deteve todos os que se concentraram na vígília nocturna. Todos mesmo. Não escapou a equipa do Novo Jornal, que se limitava a fazer o seu trabalho.
Dois jornalistas (Ana Margoso e Pedro Cardoso) um repórter fotográfico (Afonso Francisco) e o motorista que os apoiava na deslocação (Dário Pandé) foram levados pela onda repressiva. E passaram a noite numa esquadra, impedidos de comunicar com os familiares que, amedrontados com as notícias da repressão líbia, passaram horas de aflição.
Já com o grupo todo em liberdade - manifestantes e equipa do Novo Jornal - resta a pergunta: Porquê?
Não há argumento que legitime uma atitute tão disparatada da polícia angolana.
Nem regime, por mais democrático que seja, que resista à erosão provocada pela detenção de jornalistas e gente pacífica.
sábado, 5 de março de 2011
Pela Primavera (crónica publicada no Novo Jornal)
Já são conhecidos os candidatos ao Prémio Nobel da Paz de 2011.
São 241 nomeados dos quatro cantos do mundo, um número recorde, 53 dos quais são organizações.
Apesar de a lista ser um segredo bem guardado até à data do anúncio do vencedor, em respeito pelos estatutos, o director do Instituto Nobel destapou um pouco o véu. E, sem trair a identidade dos nomeados, admitiu que a edição deste ano foi influenciada pela «Primavera árabe». “Recebemos várias propostas que reflectem a situação” na Tunísia, Egipto e Líbia, precisou Geir Lundestad.
Mas nem só da Primavera se fazem os prémios Nobel deste ano.
São 241 nomeados dos quatro cantos do mundo, um número recorde, 53 dos quais são organizações.
Apesar de a lista ser um segredo bem guardado até à data do anúncio do vencedor, em respeito pelos estatutos, o director do Instituto Nobel destapou um pouco o véu. E, sem trair a identidade dos nomeados, admitiu que a edição deste ano foi influenciada pela «Primavera árabe». “Recebemos várias propostas que reflectem a situação” na Tunísia, Egipto e Líbia, precisou Geir Lundestad.
Mas nem só da Primavera se fazem os prémios Nobel deste ano.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Ouro de Tombuctu (crónica publicada no Novo Jornal)
“As palavras constituem o nervo e o músculo que mantém as sociedades de pé”, argumentou. Veja o Alcorão, a Bíblia, a Constituição Americana, mas também as cartas escritas de pais e filhos, os testamentos, as bênçãos, as maldições. Milhares de palavras, imbuídas do espectro completo de emoções, enchem todos os recantos e esconsos da vida humana. “Algumas dessas palavras só podem ser vistas aqui, em Tombuctu”, afirmou, triunfante”.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
A certeza... (crónica publicada no Novo Jornal)
A frase que em 2008 levou Barack Obama à presidência dos Estados Unidos está a servir de mote às manifestações que nas últimas semanas se registam em vários cantos do globo terrestre.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Pontas soltas (crónica publicada no Novo Jornal)
O povo votou e decidiu a libertação do sul do até agora maior país africano. Mas o referendo sobre a independência do sul do Sudão, realizado a 9 e 15 de Janeiro, está envolto num emaranhado de pontas soltas que podem ensombrar a conquista da liberdade prometida para 9 de Julho, data de criação da nova nação africana.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
A canção que se transformou num hino
Há toda uma geração que se revê nesta música dos Deolinda e antes mesmo de o tema "Que parva que eu sou" ser gravado transformou-se num hino.
O Coliseu do Porto foi ao rubro, a cada verso cantado por Ana Bacalhau.
Um hino que encaixa nos jovens portugueses.
E que facilmente se aplica a jovens de outros países, quer seja em Angola, Moçambique, no Magreb ou nos EUA.
Há uma geração que anda à deriva à procura de oportunidade... e um futuro que se compromete enquanto não encontrar um rumo para lhe dar.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
As cartas (crónica publicada no Novo Jornal)
“- Que me trazes aí, pequeno?
- É para o carneiro, pai.
- Qual carneiro?
Como é que não compreendia? O garoto estava quase a chorar, mas conseguiu conter-se e explicou tudo àquele pai embrutecido pela miséria, escravo de uma fatalidade rigorosa e cruel.
- É para o carneiro, pai.
- Qual carneiro?
Como é que não compreendia? O garoto estava quase a chorar, mas conseguiu conter-se e explicou tudo àquele pai embrutecido pela miséria, escravo de uma fatalidade rigorosa e cruel.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Que penúria! (crónica publicada no Novo Jornal)
Dois reclusos de uma prisão da capital portuguesa, considerados perigosos, conseguiram fugir de uma carrinha celular, em pleno dia, quando iam ser ouvidos por um juiz.
O incidente ocorreu no estacionamento do Departamento Central de Investigação e Acção Penal de Lisboa. Quando um dos guardas abriu a porta da carrinha foi atingido na cara com gás pimenta. Dois dos três reclusos, detidos por crimes relacionados com tráfico de drogas, conseguiram escapar. Furtaram um automóvel, dispararam alguns tiros e meteram-se em fuga.
O incidente ocorreu no estacionamento do Departamento Central de Investigação e Acção Penal de Lisboa. Quando um dos guardas abriu a porta da carrinha foi atingido na cara com gás pimenta. Dois dos três reclusos, detidos por crimes relacionados com tráfico de drogas, conseguiram escapar. Furtaram um automóvel, dispararam alguns tiros e meteram-se em fuga.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Discriminação partidária
Um grupo de jovens foi detido pela Notícia Nacional quando tentava entregar folhetos aos deputados a solicitar o adiamento da aprovação da lei que institui o 14 de Abril como o Dia Nacional da Juventude.
Os jovens contestam o facto de a Assembleia Nacional escolher como Dia da Juventude angolana a data em que morreu um herói do MPLA, partido que detém uma representação esmagadoramente maioritária no parlamento angolano.
Os jovens, que representam diversas organizações juvenis da oposição, têm o direito de reclamar por uma data suprapartidária, sem que isso ponha em causa os feitos de Hoji-Ya-Henda.
Travá-los e enclausurá-los, durante algumas horas, numa esquadra de polícia não cala a sua voz, nem apazigua os ânimos de representantes de organizações partidárias juvenis que também querem fazer parte da história do seu país.
Porque também lutaram pela independência de Angola.
Os jovens contestam o facto de a Assembleia Nacional escolher como Dia da Juventude angolana a data em que morreu um herói do MPLA, partido que detém uma representação esmagadoramente maioritária no parlamento angolano.
Os jovens, que representam diversas organizações juvenis da oposição, têm o direito de reclamar por uma data suprapartidária, sem que isso ponha em causa os feitos de Hoji-Ya-Henda.
Travá-los e enclausurá-los, durante algumas horas, numa esquadra de polícia não cala a sua voz, nem apazigua os ânimos de representantes de organizações partidárias juvenis que também querem fazer parte da história do seu país.
Porque também lutaram pela independência de Angola.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Poema cantado
Nha mudjer
Mario Lucio Sousa
Vídeo do Myspace
Mário Lúcio começou bem o ano de 2011.
O último disco do músico caboverdiano, «Kreol» está em quinto lugar na tabela de melhor disco do mundo da World Music Workshop das rádios da União Europeia.
O CD está há dois meses no Top 15 e no mês de Janeiro subiu sete posições, estando à frente de trabalhos como «Cesária & …», que ocupa o 15º lugar.
A crítica destaca a concepção de Mário Lúcio sobre a ideia do crioulo e louva o músico, que se lançou a solo com o disco «Mar e Luz» depois de uma carreira de destaque com os Simentera, por ter incorporado habilmente entre os seus convidados Harry Belafonte e a também caboverdiana Cesária Évora.
Do seu primeiro álbum, destaco outro dueto (de que fica aqui um excerto). «Nha mudjer» junta as vozes de Mário Lúcio e do brasileiro Gilberto Gil num tema que é, todo ele, um poema.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Haja saúde (crónica publicada no Novo Jornal)
A revolução cubana trouxe uma das mais bem sucedidas reformas da saúde que o mundo conhece e deu ao regime dos irmãos Castro uma das mais bem sucedidas armas de política externa.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Porque há quem merece
Foto: Ampe Rogério, Novo Jornal
Há uma professora na Escola Portuguesa de Luanda que há muito merece uma distinção do governo português pelo muito que fez, e faz, pela língua.
Cremilda de Lima não é uma professora qualquer.
Esta angolana, formada na primeira escola do Magistério Primário que abriu em Angola, no Bié, simboliza aquilo que deve ser um professor. Alguém que não se conforma, que faz da adversidade oportunidade, e que encara o ensino como uma missão, que cumpre com empenho e prazer.
Nos anos 80, confrontada com a falta de livros em Angola, por causa da guerra no país, Cremilda de Lima começou a escrever pequenas histórias, consciente de que a melhor forma de ensinar os alunos era com o recurso às narrativas.
As suas histórias começaram a correr mão e daí à publicação foi um passo. No dia 31 de Dezembro de 2010, a autora lançou mais um livro, «A viagem do pai Natal», que conta a história de uma menina, Olguinha, que ganhou uma boneca como prenda.
Muitos outros livros incentivam as crianças a ler e transmitem valores universais, sem esquecer as tradições e vivências angolanas.
Com tantas comendas que se atribuem no 10 de Junho – Dia de Portugal, Camões e das Comunidades - não fica mal ao governo português olhar para sul.
Mais do que um prémio, é um acto de justiça para quem serve, tão bem, a língua portuguesa.
Só rir (crónica publicada no Novo Jornal)
Um estudo desenvolvido pela Universidade de Navarra, Espanha, concluiu que com 15 minutos de riso por dia se ganham quatro anos e meio de vida.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Pelo pão... (crónica publicada no Novo Jornal)
Um electricista romeno do canal de televisão estatal atirou-se, na antevéspera do Natal, das galerias do Parlamento em Bucareste para protestar contra as medidas de austeridade do governo.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Mais ou menos? (crónica publicada no Novo Jornal)
No norte, aposta-se em mostrar tudo.
No sul, encobre-se cada vez mais e só se mostra o que interessa.
São as surpresas de Natal que nos reservam dois países das imensas Américas.
No sul, encobre-se cada vez mais e só se mostra o que interessa.
São as surpresas de Natal que nos reservam dois países das imensas Américas.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
A caminho (crónica publicada no Novo Jornal)
A Europa está em ebulição e nas vésperas de uma cimeira de chefes de Estado e de Governo, em Bruxelas, que marca o fim da presidência belga da União Europeia, os cidadãos do continente deram uma vez mais mostras de que não estão dispostos a pagar pelos erros dos políticos que os governam.
sábado, 11 de dezembro de 2010
A verdade (II) (crónica publicada no Novo Jornal)
Na década de 80 do século passado, a jornalista e escritora Meredith Maran foi incumbida de editar o livro de uma investigadora sobre crimes de incesto e abuso sexual infantil e nos anos seguintes escreveu compulsivamente sobre o assunto, em jornais e revistas.
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
O primeiro correspondente internacional em África
Um grupo de jornalistas polacos chega dia 9 de Dezembro a Luanda para dar início, no interior de Angola, à primeira etapa de uma viagem de homenagem a Kazimierz Nowak, um "bravo polaco" que, em 1931, se aventurou pelo continente africano na companhia da sua bicicleta.
Durante cinco anos, Nowak registou e relatou o quotidiano dos africanos nos despachos que enviou para a sua Polónia natal, como relata Mirolaslaw Wlekly, nesta reportagem publicada na última edição do Novo Jornal.
As fotografias que ilustram a peça são do arquivo pessoal da família de Kazimierz Nowak e mostram como o jornalista enfrentou os perigos que o desconhecido lhe foi colocando no caminho, quer a conviver com tribos canibais, quer a despistar animais selvagens ou a atravessar as areias do deserto do Sahara na companhia, apenas da sua bicicleta, duas máquinas fotográficas, uma "espingarda de cano duplo, uma centena de cartuchos, uma pistola automática, um cobertor, rede entomológica, uma tenda, postes, um machado, pneus de reserva, raios para as rodas, colas e adesivos, o gancho da agulha, linha, um quarto de quilo de quinino, aspirina e um pouco de óleo de ricino, duas mudas de roupa, e como stock total de alimentos por quilo de açúcar, 250 gramas de chá, um pouco de petróleo e um saco de farinha".
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A verdade (I) (crónica publicada no Novo Jornal)
O mundo está de pernas para o ar, desde que o site WikiLeaks divulgou mais de 250 mil documentos diplomáticos norte-americanos.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Vida difícil das zungueiras

Uma zungueira que vendia junto ao mercado de S. Paulo, em Luanda, foi há uma semana baleada por um agente da Polícia Nacional.
As colegas - mulheres que todos os dias palmilham dezenas de quilómetros para sustentar os filhos, maridos e outros mais que dependem delas - afirmam que Domingas Gomes, de 25 anos, foi atingida mortalmente a tiro, depois de um agente lhe desferir golpes na cabeça com um pau.
A Polícia Nacional diz que não. Que a zungueira “não corre perigo de vida”. O “tiro foi no pé”.
Entre o que uns e outros dizem não há margem para fugir a uma triste realidade.
A polícia e os fiscais gostam de "dar corrida nas zungueiras".
É vê-los a perseguir as mulheres com a bacia à cabeça e, muitas vezes, filhos às costas.
É vê-los a levarem o produto do seu sustento, depois de confiscado à má-fé e para, na maior parte dos casos, usufruto próprio.
É vê-los de bastão no ar e pistola em riste atrás de mulheres indefesas.
Na memória dos luandenses ainda está fresca a morte, por atropelamento, de uma zungueira e do filho que carregava quando fugia de um polícia no S. Paulo.
As zungueiras fazem parte da paisagem angolana.
Por elas passa grande parte da vida económica do país.
Num país com postos de trabalho em número insuficiente, as mulheres criam, graças à zunga, gerações de filhos.
Alimentam e dão instrução a milhões de bocas.
Pelas bacias que carregam passa a vida de muitas pessoas.
Não há angolano - homem do povo, polícia ou ministro - que não tenha o ADN de uma zungueira.
Sangue de zungueira a correr-lhe pelas veias.
Suor de zungueira a escorrer-lhe pela tez.
Por isso, como escreveu a jornalista Susana Mendes, disparar contra elas é atirar contra o povo.
Mas é mais fácil, observa.
Bem mais fácil do que andar atrás dos “bandidos”.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Meninas-mulher (crónica publicada no Novo Jornal)
O Presidente do Irão introduziu uma nova questão na sua agenda política. Mahmoud Ahmadinejad quer que os iranianos casem mais cedo e propôs a antecipação da idade mínima dos matrimónios para os 16 anos, no caso das mulheres, e para os 19, no caso dos homens.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Conjugar mal... (crónica publicada no Novo Jornal)
Centenas de lisboetas concentraram-se, há uma semana, nas várias ruas circundantes ao Saldanha para se despedir do «Senhor do Adeus». Durante mais de duas horas, imitaram o gesto que tornou João Paulo Pereira conhecido.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
"Problemas técnicos" na TPA
O último lesado pelos "problemas técnicos" da estação pública de Angola foi o jornalista Reginaldo Silva.
No último programa «Semana em Actualidade», transmitido aos domingos, o também dirigente do Sindicato dos Jornalistas Angolanos criticou o MPLA por na atribuição de condecorações aos nacionalistas, no 11 de Novembro (data de proclamação da independência), se limitar a figuras do partido do poder e não ter condecorado ninguém ligado à UNITA ou ao FNLA.
Estava Reginaldo Silva a explicar que esta atitude em nada ajuda à reconciliação nacional quando, ups, a emissão foi abaixo.
Por "problemas técnicos".
A TPA ficou às escuras e Reginaldo Silva perdeu a voz.
A televisão voltou à antena, quando o comentador já estava longe.
Os técnicos que avaliarem os "problemas técnicos" da TPA devem ter em conta que estes cortes na emissão só se dão quando alguém põe em causa o M, ou seja, o partido no poder.
Com esta informação poderão com maior facilidade detectar onde está o problema.
E resolvê-lo.
Para que os angolanos possam, sem interrupções, ver o que se passa no seu país.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
O diplomata que sacrificou a carreira (reportagem publicada no Novo Jornal)
O Brasil foi o primeiro país a reconhecer Angola, no dia 11 de Novembro de 1975. Na passagem dos 35 anos sobre a Proclamação da República de Angola, é bom recordar os momentos que antecederam uma das decisões mais difíceis da diplomacia brasileira. E olhar para o exemplo de um diplomata, Ovidio de Andrade Melo, que se manteve fiel a princípios e que, por causa, disso sacrificou a carreira. Um testemunho, na primeira pessoa, publicado numa edição especial do Novo Jornal, comemorativa do 11 de Novembro.
sábado, 13 de novembro de 2010
Mistério da criança abandonada
Em Luanda há uma criança, de 12 anos, que diz ter sido abandonada por um casal português que a adoptou e que, há dois meses, deambula pela cidade sem que se saiba com exactidão quem é e de onde vem.
Tudo nesta história recambolesca está no condicional.
O miúdo, que afirma chamar-se Fernandes Alexandre Teixeira, não tem documentos.
Diz que nasceu em Angola.
Que foi adoptado por um casal português, ela médica pediatra no Hospital de Santo António, no Porto; ele superintendente da polícia.
Que vivia no Porto, onde foi criado desde pequeno.
Que esteve, durante dois anos, no Internato Luís de Camões, em Ovar.
Que um padrinho o trouxe, ao engano, para Angola.
Que foi abandonado num centro comercial, depois de visitar uma "velha", alegadamente sua avó, mas que desmente qualquer vínculo com o miúdo.
As informações dadas pelo adolescente, que evidencia uma inteligência e desenvoltura anormal para a idade, não batem certo com a realidade.
A mãe/médica não trabalha onde ele diz trabalhar.
No internato não há registo da passagem do menino, que fala um português escorreito, sem o sotaque característico dos angolanos.
A morada que deu como sendo a sua e do casal não existe.
O número de telemóvel da mãe vai parar a um homem de Portimão.
O consulado português não consegue encontrar um fio que permita começar a desenrolar o novelo.
A rapaz foi acolhido num lar de Luanda, ligado ao Instituto Nacional de Apoio à Criança, mas por duas vezes fugiu.
A polícia também já lhe deu acolhimento para dormir, na esquadra.
Uma senhora de Luanda vai-lhe dando apoio e alimentação e, nos intervalos do trabalho, mantém contactos com instituições para encontrar o rasto à família do adolescente.
No meio de tanta discrepância sobressai o receio de se estar perante uma monumental mentira.
Mas a pergunta mantém-se: quem é este rapaz?
Tudo nesta história recambolesca está no condicional.
O miúdo, que afirma chamar-se Fernandes Alexandre Teixeira, não tem documentos.
Diz que nasceu em Angola.
Que foi adoptado por um casal português, ela médica pediatra no Hospital de Santo António, no Porto; ele superintendente da polícia.
Que vivia no Porto, onde foi criado desde pequeno.
Que esteve, durante dois anos, no Internato Luís de Camões, em Ovar.
Que um padrinho o trouxe, ao engano, para Angola.
Que foi abandonado num centro comercial, depois de visitar uma "velha", alegadamente sua avó, mas que desmente qualquer vínculo com o miúdo.
As informações dadas pelo adolescente, que evidencia uma inteligência e desenvoltura anormal para a idade, não batem certo com a realidade.
A mãe/médica não trabalha onde ele diz trabalhar.
No internato não há registo da passagem do menino, que fala um português escorreito, sem o sotaque característico dos angolanos.
A morada que deu como sendo a sua e do casal não existe.
O número de telemóvel da mãe vai parar a um homem de Portimão.
O consulado português não consegue encontrar um fio que permita começar a desenrolar o novelo.
A rapaz foi acolhido num lar de Luanda, ligado ao Instituto Nacional de Apoio à Criança, mas por duas vezes fugiu.
A polícia também já lhe deu acolhimento para dormir, na esquadra.
Uma senhora de Luanda vai-lhe dando apoio e alimentação e, nos intervalos do trabalho, mantém contactos com instituições para encontrar o rasto à família do adolescente.
No meio de tanta discrepância sobressai o receio de se estar perante uma monumental mentira.
Mas a pergunta mantém-se: quem é este rapaz?
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Os números do amigável Palancas Negras/Benfica
Os números do jogo entre a selecção angolana, os Palancas Negras, e o Benfica não páram de espantar.
Para além do pagamento de um milhão e oitocentos mil euros (o equivalente a dois milhões e meio de dólares) ao Benfica, para se deslocar a Luanda e disputar o jogo comemorativo dos 35 anos da independência de Angola, o preço cobrado pelos camarotes no Estádio 11 de Novembro atingiu a linda soma de mil dólares.
Talvez tenha sido pelo elevado valor dos bilhetes que poucas horas antes do início da partida, o movimento na procura desse sinais de estádio meio vazio.
A Federação Angolana de Futebol acabou por franquear as portas.
O estádio encheu.
E o angolanos gostaram da partida, apesar do Benfica ter batido a selecção nacional por dois golos a zero.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Massacre no Sahara Ocidental
As imagens que nos chegam do acampamento de Gdeim Izik confirmam que há um massacre em curso no Sahara Ocidental, por mais que Marrocos desminta o contrário.
As fotografias do jornal espanhol El Pais demonstram, com clareza, o tipo de intervenção ordenado por Rabat e devem servir de pretexto para que a ONU dê, finalmente, a oportunidade aos saharauis de decidirem, em referendo, o seu destino: se querem a autodeterminação, como aconteceu em Timor Leste, ou manterem-se sobre dominação de Marrocos, que ocupou a região quando Espanha abandonou, em 1975, o Sahara Ocidental.
O regresso a casa de Aminatu Haidar, presidente do Colectivo de Direitos Humanos do Sahara Ocidental, no final de Dezembro de 2009, depois de mais de 30 dias em greve de fome, em Lanzarote, foi um dos temas do Paralelos da primeira edição de 2010 (que pode ler clicando no Ler mais).
De lá para cá, a atitude de Marrocos mudou. Para pior, como se vê.
Evitar o massacre (crónica publicada no Novo Jornal)*
Se a Europa precisava de um pretexto para intervir na questão do Sahara Ocidental já a tem.
Se Espanha e França, o primeiro ex-potência colonial do Sahara Ocidental e o segundo de Marrocos, “esperavam por mortos” para condenar o regime de Mohammed VI “já os há”.
Se Espanha e França, o primeiro ex-potência colonial do Sahara Ocidental e o segundo de Marrocos, “esperavam por mortos” para condenar o regime de Mohammed VI “já os há”.
35 anos de Angola
No dia 11 de Novembro de 1975, Agostinho Neto proclamou a independência de Angola, um desejo que perpassa muitos dos seus versos.
Criar
Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a floresta impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárneo da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.
Criar
Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a floresta impúdica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
gargalhadas sobre o escárneo da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiro
força no esfrangalhado das portas violentadas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com os olhos secos
Criar criar
estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar paz com os olhos secos
Criar criar
criar liberdade nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas simuladas
criar
criar amor com os olhos secos.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
A marcha barrada
A violência doméstica é um fenómeno generalizado e alarmante em Angola.
As principais vítimas são as mulheres e as crianças.
Fartas de esperar pela aprovação do ante-projecto sobre a Lei da Violência Doméstica, há mais de dois anos na gaveta, a Plataforma da Mulher em Acção agendou uma marcha para hoje, entre a Praça 1º de Maio - Largo da Independência, terminando em frente à Assembleia Nacional, onde o grupo apresentaria uma petição.
A marcha não chegou ao seu destino.
Foi barrada por efectivos do Comando Municipal das Ingombotas da Polícia Nacional, sob pretexto de que não tinham sido notificados sobre a iniciativa.
A aprovação do ante-projecto sobre a Lei da Violência Doméstica também foi barrada.
Só não se sabe porquê, nem por quem.
Ou, pior, não se sabe se o ante-projecto foi travado por interesse de alguém.
Pela premência, nada justifica que ainda não tenha sido aprovado.
As principais vítimas são as mulheres e as crianças.
Fartas de esperar pela aprovação do ante-projecto sobre a Lei da Violência Doméstica, há mais de dois anos na gaveta, a Plataforma da Mulher em Acção agendou uma marcha para hoje, entre a Praça 1º de Maio - Largo da Independência, terminando em frente à Assembleia Nacional, onde o grupo apresentaria uma petição.
A marcha não chegou ao seu destino.
Foi barrada por efectivos do Comando Municipal das Ingombotas da Polícia Nacional, sob pretexto de que não tinham sido notificados sobre a iniciativa.
A aprovação do ante-projecto sobre a Lei da Violência Doméstica também foi barrada.
Só não se sabe porquê, nem por quem.
Ou, pior, não se sabe se o ante-projecto foi travado por interesse de alguém.
Pela premência, nada justifica que ainda não tenha sido aprovado.
domingo, 7 de novembro de 2010
Haja cabeça (os Tuneza, de novo)
Em dia de clássico no Dragão, entre o Porto e o Benfica, dei comigo a pensar que o futebol é um mundo à parte, eivado de alguma esquizofrenia e nonsense, patente quer na forma como os adeptos mais fervorosos vivem o jogo, quer nos debates que envolvem a modalidade.
Lembrei-me então de um debate dos tuneza sobre o primeiro jogo do CAN 2010 (Campeonato Africano das Nações), disputado em Angola, que opôs a equipa da casa (os Palancas Negras) à selecção do Mali.
Aos 79 minutos, Angola ganhava por quatro a zero, mas um golo do Mali, apontado por Seydou Keita, deu início à reviravolta. O jogo acabou empatado, para infelicidade dos adeptos angolanos que viram a vitória, em grande, perto.
Como nota final para os que não acompanharam o jogo, Flávio marcou dois golos de cabeça para os Palancas Negras.
* O segundo vídeo é um brinde, que paraboliza os debates desportivos, para conhecerem o quinteto humorístico, constituído pelos actores Daniel Vilola Francisco, Orlando Rodrigues, Gilmário Vemba, Cesalty Paulo e José Chieta, na altura num programa da TPA (Televisão Pública de Angola). Hoje, eles podem ser vistos na Zimbo, o primeiro canal televisivo privado de Angola.
sábado, 6 de novembro de 2010
Uma lufada de ar
Em 2003, José Saramago disse ao Jornal do Centro, de Viseu, uma frase que deu título à entrevista com o único Nobel da Literatura português: “Portugal já não se deixa ler. Só conseguimos soletrá-lo…”
Hoje nem sequer conseguimos ver e ouvir as notícias que vêm de lá.
Felizmente, há trabalhos que fogem ao fatalismo vigente e que valem a pena.
Ora, ouçam http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=1704289
Parabéns a Nuno Amaral e a João Félix Pereira.
Hoje nem sequer conseguimos ver e ouvir as notícias que vêm de lá.
Felizmente, há trabalhos que fogem ao fatalismo vigente e que valem a pena.
Ora, ouçam http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Vida/Interior.aspx?content_id=1704289
Parabéns a Nuno Amaral e a João Félix Pereira.
O país de Antónia
Manecas Costa tornou-se nos últimos anos num dos embaixadores de um país e de um povo que nada têm a ver com a visão que o mundo tem deles por causa da instabilidade militar e política vivida na Guiné-Bissau.
O país de Antónia é feito de gente generosa, que trabalha, que reparte o pouco que tem e que distribui o seu sorriso, seja em Bissau ou em Caxeu (primeira capital da Guiné), seja em Portugal ou Angola.
Manecas Costa é representante de um povo sereno, simpático mas não servil, que deixa uma marca positiva por onde passa.
É sempre bom ouvir uma parte desse país que guardo no coração.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Simplesmente fabuloso
O encontro entre Narf (Galiza) e Manecas Costa (Guiné Bissau) resume-se numa palavra: fabuloso.
Deslocação milionária do Benfica
O Benfica vem a Luanda, no dia 10 de Novembro, véspera do 35º aniversário da Independência de Angola, disputar um jogo com a selecção nacional, as Palancas Negras, por 2 milhões e meio de dólares.
Isso mesmo.
Dois milhões e meio de dólares, ou seja um milhão e 800 mil euros, é quanto o Benfica cobra pela deslocação a sul.
Ninguém questiona o valor do plantel da Luz, nem o incómodo que sete horas de viagem para cá e sete horas de viagem para lá provoca nos seus jogadores, entre jogos importantes das competições portuguesas e europeias, mas lá que é um absurdo, isso é.
A não ser que, como escreve Gustavo Costa, no Novo Jornal (pode ler a crónica clicando no Ler mais), o clube de Luís Filipe Vieira se tenha transformado no Sport Angola e Benfica...
Isso mesmo.
Dois milhões e meio de dólares, ou seja um milhão e 800 mil euros, é quanto o Benfica cobra pela deslocação a sul.
Ninguém questiona o valor do plantel da Luz, nem o incómodo que sete horas de viagem para cá e sete horas de viagem para lá provoca nos seus jogadores, entre jogos importantes das competições portuguesas e europeias, mas lá que é um absurdo, isso é.
A não ser que, como escreve Gustavo Costa, no Novo Jornal (pode ler a crónica clicando no Ler mais), o clube de Luís Filipe Vieira se tenha transformado no Sport Angola e Benfica...
Humor a sério (crónica publicada no Novo Jornal)
Vai percorrer o país num carro funerário para sepultar a corrupção.
José Manuel Coelho é o mais recente candidato às eleições presidenciais portuguesas.O deputado do Partido da Nova Democracia (PND) na Assembleia Legislativa da Madeira, que se tornou célebre pela forma insólita como exerce a política, apresentou a candidatura assente num slogan lapidar: “Basta de pastéis, Coelho a Belém”. Porque, explica o candidato, o “povo já está farto dos pastéis que lhe têm indisposto a vida, dos cinzentões e situacionistas”.
José Manuel Coelho é o mais recente candidato às eleições presidenciais portuguesas.O deputado do Partido da Nova Democracia (PND) na Assembleia Legislativa da Madeira, que se tornou célebre pela forma insólita como exerce a política, apresentou a candidatura assente num slogan lapidar: “Basta de pastéis, Coelho a Belém”. Porque, explica o candidato, o “povo já está farto dos pastéis que lhe têm indisposto a vida, dos cinzentões e situacionistas”.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
A montra dos criminosos
Fotografia do jornal «O País»
Em Angola há uma prática que já devia ter sido abolida há muito tempo.
Quando a Polícia Nacional faz detenções chama os jornalistas e põe os alegados criminosos a assumirem publicamente a autoria dos crimes de que são acusados e a justificá-los.
Alinhados como numa montra e, por vezes, com folhas A4 coladas ao peito com a informação do crime cometido, a Polícia Nacional atropela todos os direitos dos acusados. E o principal deles é o direito à presunção de inocência, porque esta exibição pública é feita sem condenação em tribunal ou culpa judicialmente formada.
Felizmente que os orgãos de comunicação social, mais sensibilizados para os direitos dos cidadãos, começam a colocar sombra sobre os rostos dos visados e a preservar a sua identidade visual.
Numa altura em que se assistem a inúmeras detenções de titulares e ex-titulares de cargos públicos, por desvio de dinheiro e abuso de poder, entre outros crimes, não percebo porque não se generaliza a prática.
É que não há criminosos de primeira, nem de segunda. Há, simplesmente, criminosos.
Mas se o critério tende para a gravidade do crime, os segundos deviam ser exibidos publicamente e não os primeiros.
terça-feira, 2 de novembro de 2010
A morte (no dia dos finados)
Os angolanos convivem frequentemente com a morte.
Ela está sempre presente e a rondar.
É arbitrária.
Leva velhos, jovens, crianças (muitas)
A guerra, primeiro; as doenças, os acidentes e o álcool, agora, cobiçam a vida.
E a morte está sempre por perto.
No início estranhei a facilidade com que os angolanos lidam com a morte.
Fazem o óbito.
E avançam.
Já perdi pessoas muito importantes e sei o que custou reagir e, custa ainda, aceitar.
Hoje percebo que os angolanos não têm menos desprezo por quem parte.
É pragmatismo.
Porque é preciso seguir em frente.
“(…)
Nada mudou para quem delega a glória.
Nada é tão grave que nos impeça os corpos.
Estamos aqui, sentados, sabendo que o conforto
é só cá dentro e a casa é cheia de alegria e festa
e a carne é fresca porque viva e alheia
à carne longe, retalhada e fria.
Somos de fato, em nosso apuro e com o nosso dote,
uma versão apenas indecisa
do nó que nos habita bem no centro.
Rapazes, raparigas,
que cada um empunhe a flor oculta
para inseri-la entre pernadas jovens.
A morte longe enquanto nos arder
à flor da boca
esta atenção pela florações dos outros.”
(Excerto do poema "Memória da guerra em julho" que pode ler na íntegra clicando no "Ler mais")
Ela está sempre presente e a rondar.
É arbitrária.
Leva velhos, jovens, crianças (muitas)
A guerra, primeiro; as doenças, os acidentes e o álcool, agora, cobiçam a vida.
E a morte está sempre por perto.
No início estranhei a facilidade com que os angolanos lidam com a morte.
Fazem o óbito.
E avançam.
Já perdi pessoas muito importantes e sei o que custou reagir e, custa ainda, aceitar.
Hoje percebo que os angolanos não têm menos desprezo por quem parte.
É pragmatismo.
Porque é preciso seguir em frente.
“(…)
Nada mudou para quem delega a glória.
Nada é tão grave que nos impeça os corpos.
Estamos aqui, sentados, sabendo que o conforto
é só cá dentro e a casa é cheia de alegria e festa
e a carne é fresca porque viva e alheia
à carne longe, retalhada e fria.
Somos de fato, em nosso apuro e com o nosso dote,
uma versão apenas indecisa
do nó que nos habita bem no centro.
Rapazes, raparigas,
que cada um empunhe a flor oculta
para inseri-la entre pernadas jovens.
A morte longe enquanto nos arder
à flor da boca
esta atenção pela florações dos outros.”
(Excerto do poema "Memória da guerra em julho" que pode ler na íntegra clicando no "Ler mais")
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Cor de chocolate
A minha filha de três anos (faltam dois meses e meio para fazer quatro) está na fase das pinturas.
Com o seu estojo de canetas de feltro, passa horas a dar cor a desenhos de vários livros.
Hoje, ao final da tarde, apareceu com o antebraço pintado de castanho.
Ralhei-lhe e disse-lhe que não voltasse a fazer o mesmo.
"Pintar é no papel, não na pele", expliquei.
À hora do jantar, a miúda vira-se para mim e diz: "Mãe, sabes porque é que pintei o braço?"
"Não", respondi.
"Queria ficar cor de chocolate".
As crianças dão-nos cada lição.
Basta estar atento.
Com o seu estojo de canetas de feltro, passa horas a dar cor a desenhos de vários livros.
Hoje, ao final da tarde, apareceu com o antebraço pintado de castanho.
Ralhei-lhe e disse-lhe que não voltasse a fazer o mesmo.
"Pintar é no papel, não na pele", expliquei.
À hora do jantar, a miúda vira-se para mim e diz: "Mãe, sabes porque é que pintei o braço?"
"Não", respondi.
"Queria ficar cor de chocolate".
As crianças dão-nos cada lição.
Basta estar atento.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
O feitiço de Ângela Ferrão
Finalmente encontrei um vídeo de Ângela Ferrão, no youtube, que possa partilhar.
Ouvi-a na rádio, há tempos, mas não consegui encontrar nenhum registo gravado. As poucas discotecas de Luanda restringem-se aos nomes mais comerciais e os vendedores de cd's piratas, que proliferam pelas ruas da capital, vendem o que está "a bater" no momento.
É pena, porque a música genuinamente angolana vai-se perdendo na máquina trituradora do gosto massificado.
Adiante.
«Wanga» (feitiço) é uma mostra desta cantora, natural de Amboim, município da Gabela, mas que cresceu no Wako Kungo, província do Kwanza-Sul.
Ângela Ferrão seguiu as pisadas do pai, Lito Ferrão, um exímio guitarrista e compositor, que deu nas vistas na década de 80 no Festival da Canção Política e que se mantém como um das referências musicais daquela província.
Depois de participar em vários festivais de música em Luanda, que lhe deram visibilidade, a cantora, nascida em 1976, lançou o disco "Wanga" (feitiço em kimbundu), de onde foi extraído este vídeo, e prepara o segundo trabalho que aguardo com expectativa, porque, para além da voz, Ângela mantém-se fiel às suas raízes. E às tradições culturais de Angola.
A sua música é um (bom) feitiço.
Amílcar Cabral para os mais novos
O Teatromosca estreia amanhã, em Sintra, Portugal, uma peça de Miguel Horta, encenada por Suzana Barros, sobre o independentista Amílcar Cabral.
“A tarde vai caindo melancólica como sucede em África. O kora de mestre Galissa vai dando a atmosfera em cena, com as suas toadas e cantos ancestrais da tradição Mandinga.”
“A tarde vai caindo melancólica como sucede em África. O kora de mestre Galissa vai dando a atmosfera em cena, com as suas toadas e cantos ancestrais da tradição Mandinga.”
A fábula da capoeira (crónica publicada no Novo Jornal)
Uma capoeira, com centenas de galinhas e alguns galos, possantes, altivos.
Um incêndio no celeiro. Do fogo salva-se uma parcela de comida. Escassa para tantas cabeças.
Os galos, em reunião restrita, decidem que algumas das aves têm de ser enxotadas da capoeira, porque a comida não chega para todos.
Um incêndio no celeiro. Do fogo salva-se uma parcela de comida. Escassa para tantas cabeças.
Os galos, em reunião restrita, decidem que algumas das aves têm de ser enxotadas da capoeira, porque a comida não chega para todos.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
A chuva
Chove em Luanda.
Com força.
Há dois dias que o céu está carregado.
Cinzento. Escuro.
Hoje chove. Com intensidade.
A chuva varre as ruas.
Empurra o entulho.
Desanuvia a atmosfera.
Desasossega quem vive na periferia.
As ruas lamacentas transformam-se em leitos.
Os rios improvisados desaguam nas casas.
Entram por elas; estragam os haveres de quem lá vive.
Instala-se o caos e a destruição nos musseques.
As casas encavalitadas nas encostas cedem.
Os morros estremecem.
Chove em Luanda.
E quando chove há um misto de alegria e dor.
A água que gera vida, também destrói. E mata.
De noite mal se dorme.
É preciso estar alerta.
A chuva traz, mas também leva.
Chove em Luanda.
O céu está mais claro.
A terra mais escura para lá do asfalto.
Mais um jornalista atacado (2)
António Manuel «Jojó» já está em casa a recuperar da agressão de que foi vítima, na quinta-feira.
O autor de «Njando», programa de grande audiência da rádio Despertar, onde o jornalista, com o recurso ao humor e à sátira, vai criticando o que o rodeia, está bem e no sábado, via telefone, falou para os seus ouvintes.
Ao contrário do que chegou a ser veiculado, «Jojó» não foi baleado. Também não saía de casa, mas de um espaço de convívio que frequenta habitualmente.
As informações que foram sendo conhecidas após as primeiras horas eram contraditórias e foi o próprio jornalista que, aos microfones da Despertar, relatou dois dias depois os acontecimentos.
O ataque aconteceu cerca das 23h00 de quinta-feira, quando foi abordado por quatro indivíduos que se apresentaram como fãs do seu programa. Um deles abraçou-o e os outros três deram-lhe apertos de mão.
Quando entrou no carro, «Jojó» sentiu que as calças estavam molhadas, apercebendo-se então que tinha sido ferido no abdómen com um objecto cortante que, segundo ele, deverá ter sido um bisturi ou uma lâmina.
Em directo no horário do seu programa, emitido aos sábados das 09h00 às 11h00, o jovem jornalista preferiu não ver a agressão como um acto político, apesar de não perceber a atitude dos indivíduos que o atacaram. Mas deixou claro que não ia desencorajá-lo e que continuará a apresentar «Njando», nome de uma dança tradicional de Benguela, em Umbundo.
Como sinal, pediu ao realizador da rádio Despertar para repor o programa do sábado anterior.
A sua voz voltou a ouvir-se em diferido, até que regresse em directo.
O autor de «Njando», programa de grande audiência da rádio Despertar, onde o jornalista, com o recurso ao humor e à sátira, vai criticando o que o rodeia, está bem e no sábado, via telefone, falou para os seus ouvintes.
Ao contrário do que chegou a ser veiculado, «Jojó» não foi baleado. Também não saía de casa, mas de um espaço de convívio que frequenta habitualmente.
As informações que foram sendo conhecidas após as primeiras horas eram contraditórias e foi o próprio jornalista que, aos microfones da Despertar, relatou dois dias depois os acontecimentos.
O ataque aconteceu cerca das 23h00 de quinta-feira, quando foi abordado por quatro indivíduos que se apresentaram como fãs do seu programa. Um deles abraçou-o e os outros três deram-lhe apertos de mão.
Quando entrou no carro, «Jojó» sentiu que as calças estavam molhadas, apercebendo-se então que tinha sido ferido no abdómen com um objecto cortante que, segundo ele, deverá ter sido um bisturi ou uma lâmina.
Em directo no horário do seu programa, emitido aos sábados das 09h00 às 11h00, o jovem jornalista preferiu não ver a agressão como um acto político, apesar de não perceber a atitude dos indivíduos que o atacaram. Mas deixou claro que não ia desencorajá-lo e que continuará a apresentar «Njando», nome de uma dança tradicional de Benguela, em Umbundo.
Como sinal, pediu ao realizador da rádio Despertar para repor o programa do sábado anterior.
A sua voz voltou a ouvir-se em diferido, até que regresse em directo.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Mais um jornalista atacado
António Manuel «Jojó» está entre a vida e a morte.
O jornalista da Rádio Despertar, autor de um programa de intervenção social muito crítico do actual «status quo», foi baleado ontem quando saía de casa para ir trabalhar.
O colega da mesma estação radiofónica ligada à UNITA, Alberto Chakusanga, foi morto no dia 5 de Setembro em sua casa, por dois homens que baterem à porta e dispararam vários tiros na sua direcção.
Desta vez esperaram que o alvo saísse de casa. E balearam-no. «Jojó» trava a luta da sua vida, numa clínica de Luanda: resistir à morte.
A sua voz nunca se calou, nem mesmo perante as ameaças. “Estou preparado para morrer”, dizia aos colegas que o recordam neste dia.
Ninguém está preparado para morrer, mas há quem esteja disposto a pagar o preço mais alto pela liberdade de informar e dizer o que pensa.
«Jojó» é o terceiro jornalista angolano a ser baleado no espaço de dois meses. Alberto Chakusanga morreu; um jornalista da TV Zimbo, baleado numa perna, está em risco de não voltar a andar. Outros dois viram as suas casas assaltadas, de um dos assaltos levaram só o computador pessoal.
A associação Repórteres sem Fronteiras divulgou um número de alerta para onde devem ligar os jornalistas que se sentem ameaçados. Esta semana a associação, com sede em Paris, difundiu um relatório onde conclui que Angola é o país lusófono mais perigoso para o exercício do jornalismo, figurando em 104º lugar a nível internacional.
No meio disto tudo onde pára o Sindicato dos Jornalistas angolanos?
É que ainda não se ouviu a sua voz.
E devia.
E agora? (crónica publicada no Novo Jornal)
“A medicina ainda tem limites”. Com esta frase crua o cirurgião pediatra Gentil Martins matou a esperança de salvar os bebés siameses que partiram na passada semana para Portugal em busca de vida.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Isso é Kuduro
Lá fora, acumula prémios. Nas televisões brasileiras já há concursos de kuduro (dança), mas há que convir que ninguém faz aquele jogo de pernas como os angolanos... a não ser este pequeno bailarino chinês.
O valor da vida humana (crónica publicada no Novo Jornal)
No ano do seu bicentenário, o Chile viveu o céu e o inferno.
Foi abanado por um terramoto devastador; assistiu a um tsunami destruidor; testemunhou um desabamento que enclausurou 33 homens dentro de uma mina; e acompanhou o resgate das entranhas da terra dos 33 mineiros que simbolizam a coesão nacional e que representam o resgate de valores, como a segurança e o respeito pela vida humana.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Exemplar
A polícia angolana tem má imagem, muito por causa da «gasosa», como é conhecido na gíria o suborno, mas há quem fuja ao retrato.
Um casal que vive em Luanda, no regresso sofrido de uma ida à clínica com uma filha menor, pisou um traço contínuo numa manobra proibida e, ups, um agente do Trânsito, que testemunhou a transgressão, mandou parar o veículo.
"Pronto, lá vamos ter de largar a nota", pensou a mulher, enquanto a filha ao seu lado gemia de dor.
O agente pediu os documentos ao condutor; observou-os atenta e educadamente e interpelou: "O senhor viu que pisou um traço contínuo?"
"Vi", respondeu o homem, explicando, sem subterfúgios, que vinha da clínica (a 300 metros) com a filha que estava doente, que a sua casa era naquela direcção e, como já perdera muito tempo, para não atrasar mais a chegada ao emprego, arriscara a manobra.
O jovem polícia ouviu o relato sem pestanejar, manifestou compreensão com o momento vivido pelo casal, mandou guardar os documentos, deu ordens para seguirem viagem, advertindo que não voltasse a repetir a transgressão, e desejou um bom resto de dia.
Uma atitude exemplar, que prova que nem todos os agentes andam atrás da «gasosa», e que aconselha prudência na generalização.
Um casal que vive em Luanda, no regresso sofrido de uma ida à clínica com uma filha menor, pisou um traço contínuo numa manobra proibida e, ups, um agente do Trânsito, que testemunhou a transgressão, mandou parar o veículo.
"Pronto, lá vamos ter de largar a nota", pensou a mulher, enquanto a filha ao seu lado gemia de dor.
O agente pediu os documentos ao condutor; observou-os atenta e educadamente e interpelou: "O senhor viu que pisou um traço contínuo?"
"Vi", respondeu o homem, explicando, sem subterfúgios, que vinha da clínica (a 300 metros) com a filha que estava doente, que a sua casa era naquela direcção e, como já perdera muito tempo, para não atrasar mais a chegada ao emprego, arriscara a manobra.
O jovem polícia ouviu o relato sem pestanejar, manifestou compreensão com o momento vivido pelo casal, mandou guardar os documentos, deu ordens para seguirem viagem, advertindo que não voltasse a repetir a transgressão, e desejou um bom resto de dia.
Uma atitude exemplar, que prova que nem todos os agentes andam atrás da «gasosa», e que aconselha prudência na generalização.
sexta-feira, 8 de outubro de 2010
Pelos direitos humanos
Mulher de Xiaobo, a poetisa Liu Xia, sobre uma foto do marido
A atribuição do prémio Nobel da Paz a Liu Xiaobo é uma decisão justíssima e de grande coragem do Comité Nobel.
O activista chinês foi escolhido pela sua longa e não violenta luta pelos direitos fundamentais na China, que já o levou, por várias vezes, à prisão, onde se encontra actualmente.
O comité Nobel não cedeu às pressões da China que, através de um responsável político, advertiu para as consequências que uma decisão destas acarretaria em termos de diplomacia.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês chegou mesmo a ameaçar, em Setembro, que os negócios noruegueses na China ficariam em risco, numa referência explícita à Statoil, um dos gigantes do petróleo, se o Nobel da Paz fosse atribuído a Liu Xiaobo.
Com a escolha do activista, o Comité Nobel mostra que há interesses mais elevados do que o negócio e que não há lugar no mundo para mordaças, seja em que hemisfério for.
Ar, apenas (crónica publicada no Novo Jornal)
O Prémio Camões de 2010, o poeta brasileiro Ferreira Gullar, não gosta de Lula da Silva. Diz que o actual Presidente do Brasil é uma figura “inacreditável”, que “não entende nada, é inteligente e esperto” e “só pensa em votos e popularidade” não indo “a fundo nas questões do país”.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
De dedo em riste (crónica publicada no Novo Jornal)
Ora ai está um exemplo que eu gostaria de ver reproduzido.
O Parlamento islandês anunciou que vai processar o ex-primeiro-ministro Geir Haarde, que governava o país na altura em que o sistema financeiro colapsou e a Islândia esteve à beira da bancarrota, por “negligência”.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Número internacional de emergência para os jornalistas
A organização francesa Repórteres sem Fronteiras está atenta ao que se passa em Angola e já transmitiu aos jornalistas angolanos um número de telefone que está disponível 24 horas por dia e que deve ser usado em caso de detenções arbitrárias, ameaças de morte ou qualquer outra emergência relacionada com o trabalho jornalístico.
0033 1 47 77 74 14
sábado, 25 de setembro de 2010
Coincidência?
Em Luanda abriu a caça ao jornalista.
No dia 5 de Setembro foi morto a tiro um jornalista da Rádio Despertar.
Um grupo de homens bateu à porta da casa de Alberto Chakusanga, à uma da madrugada, e desferiu vários tiros sobre o jornalista, de 32 anos de idade.
No último fim-de-semana, as residências de dois jornalistas do semanário «O País» foram assaltadas.
De uma levaram vários haveres; de outra apenas o computador pessoal do repórter.
Na segunda-feira, um jornalista da TV Zimbo foi baleado num pé, ao final do dia, por um grupo de homens que seguiu caminho.
O receio está instalado entre a classe.
Ninguém acredita que quatro casos, no espaço de um mês, sejam mera coincidência.
No dia 5 de Setembro foi morto a tiro um jornalista da Rádio Despertar.
Um grupo de homens bateu à porta da casa de Alberto Chakusanga, à uma da madrugada, e desferiu vários tiros sobre o jornalista, de 32 anos de idade.
No último fim-de-semana, as residências de dois jornalistas do semanário «O País» foram assaltadas.
De uma levaram vários haveres; de outra apenas o computador pessoal do repórter.
Na segunda-feira, um jornalista da TV Zimbo foi baleado num pé, ao final do dia, por um grupo de homens que seguiu caminho.
O receio está instalado entre a classe.
Ninguém acredita que quatro casos, no espaço de um mês, sejam mera coincidência.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Revelação africana
Maurice Kirya conquistou quarta-feira o primeiro lugar nos Prémios Revelações da Música Africana e países do Oceano Índico e das Caraíbas «Découvertes 2010» da RFI (Rádio França Internacional).
O reconhecimento internacional de um jovem (26 anos) activista social que, a par da música, tem abraçado várias causas no seu país.
Com apenas um disco editado, «Misubaawa», Maurice Kirya já tinha sido nomeado para o Prémio Kora, em 2005 e 2010, e foi o vencedor do concurso Music Awards Africano, realizado em 2007, no Uganda.
Regresso com o Atlântico
No regresso de férias, retomo a viagem com as cores do Atlântico, este imenso oceano que nos une.
Um exemplo só (crónica publicada no Novo Jornal)
Os chefes de Estado e de Governo reunidos em Nova Iorque na Cimeira dos Objectivos do Milénio, que terminou ontem, não têm grandes motivos para sorrir.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Direito à preguiça (crónica publicada no Novo Jornal)
- O teu irmão Galal. Dormir durante sete anos! Que artista!
- Achas que ele é artista?
- Claro. É o que eu tento explicar aos imbecis cá do bairro que vos tomam por uns mandriões.
- Mas isso é verdade. Por que razão contradizê-los?
- São uns burros, digo-te eu. Não compreendem a beleza que há nessa preguiça. Vocês são uma família extraordinária. E tu, Rafik, és o único homem inteligente que há no mundo.
- Achas que ele é artista?
- Claro. É o que eu tento explicar aos imbecis cá do bairro que vos tomam por uns mandriões.
- Mas isso é verdade. Por que razão contradizê-los?
- São uns burros, digo-te eu. Não compreendem a beleza que há nessa preguiça. Vocês são uma família extraordinária. E tu, Rafik, és o único homem inteligente que há no mundo.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Orchestra Baobab
É uma orquestra com toda a propriedade. Baobab, de seu nome. É do Senegal e espalha sons e sopros pelo mundo. Um espanto.
sábado, 14 de agosto de 2010
Ruy Duarte de Carvalho - 1941/2010
A gravação do rosto
Na superfície branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos da entrega
cumpri as trajectórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.
Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insónias longas
impacientes esperas.
O zinco dos telhados cobriu-me solidões
e esperanças que tu sabes.
Esperei por ti
Bordei-te flores nos canteiros do céu
abri-te valas, semeei-te milhos
pari colheitas de searas vãs
abri os dedos, semeei calhaus.
Espremi a terra e fiz-lhe água nascente
povoei prados de criaturas doces
ergui torres, girassóis gigantes
dei vida e morte, vi nascer, morrer.
Aqui reinei, julguei, plantei videiras
caminhos, grutas de vestígios
colhi olhares de animais bravios
deixei aos dedos aladas liberdades.
Empilhei madrugadas de atenção
disparei molas, carabinas frias
de traição ao vento.
Combati silêncios, instalei trincheiras
de perdão. Recebi recados de mongólias vastas
acendi fogueiras
para sufocar o medo.
Aqui sonhei europas, verdes ásias
cidades de cristais, antárdidas caiadas
daqui refiz a lua de astronautas;
contei estrelas colhi algumas
para dormir com elas.
Aqui ejaculei delírios verdes
que a madrugada insinua e vence.
Aqui colhi primícias de virgens escandinavas
e coroei outeiros e o meu sexo
com as suas tranças de ouro.
Saltei de monte em monte
e naveguei o ventre do deserto
assinalei o umbigo do mundo e plantei setas
apontando o sexo fundo da terra.
Beijei a carne universal e húmida de uma fêmea em cio,
menstruada.
Aqui me dei, aqui me fiz
desfiz, refiz amores.
Aqui me embebedei e vomitei o espanto.
Daqui abalo hoje, parido para o nada
apalpo a água
afago um bicho
ordeno qualquer coisa
e vou.
(Memória de tanta guerra)
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Dias difíceis
A imprensa de Angola vive dias difíceis.
A edição de 7 de Agosto de «A Capital», um dos três semanários dados como vendidos em Maio, alegadamente ao mesmo grupo, desapareceu da gráfica e não chegou às bancas.
A directora administrativa e financeira da publicação, segundo o Novo Jornal, fecha-se em copas.
Não explica o que aconteceu.
Os jornalistas resguardam-se no silêncio.
E a versão conhecida dos factos, aquela que foi noticiada pela Voz da América, revela censura.
Os novos proprietários do título, pessoas próximas do gabinete do Presidente da República, não terão gostado do editorial.
A coluna questionava o preço das casas sociais (60 mil dólares), anunciado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, uma semana antes.
O argumento era que o cidadão comum, perante a exiguidade do salário, não tinha como pagar as casas de um projecto lançado, após as legislativas, com o objectivo de dar um tecto a todos os angolanos.
Os novos donos do semanário tentaram demover o articulista, instando-o a reescrever o artigo.
Em vão.
O jornal foi impresso com a versão original.
Mas os 3.500 exemplares de «A Capital» não chegaram a sair da gráfica.
Desapareceram antes de ir para a mão dos ardinas.
E este é um facto indesmentível.
Como também o é a perseguição que a polícia de Luanda move contra os jornais privados, apreendendo-os na via pública, o que "configura um atentado à liberdade de imprensa nos termos do artigo 76, da Lei de Imprensa", como denunciou o Conselho Nacional de Comunicação Social, na sua última deliberação.
Contra os jornais públicos não se conhecem semelhantes práticas.
E assim vão os dias na imprensa angolana...
A edição de 7 de Agosto de «A Capital», um dos três semanários dados como vendidos em Maio, alegadamente ao mesmo grupo, desapareceu da gráfica e não chegou às bancas.
A directora administrativa e financeira da publicação, segundo o Novo Jornal, fecha-se em copas.
Não explica o que aconteceu.
Os jornalistas resguardam-se no silêncio.
E a versão conhecida dos factos, aquela que foi noticiada pela Voz da América, revela censura.
Os novos proprietários do título, pessoas próximas do gabinete do Presidente da República, não terão gostado do editorial.
A coluna questionava o preço das casas sociais (60 mil dólares), anunciado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, uma semana antes.
O argumento era que o cidadão comum, perante a exiguidade do salário, não tinha como pagar as casas de um projecto lançado, após as legislativas, com o objectivo de dar um tecto a todos os angolanos.
Os novos donos do semanário tentaram demover o articulista, instando-o a reescrever o artigo.
Em vão.
O jornal foi impresso com a versão original.
Mas os 3.500 exemplares de «A Capital» não chegaram a sair da gráfica.
Desapareceram antes de ir para a mão dos ardinas.
E este é um facto indesmentível.
Como também o é a perseguição que a polícia de Luanda move contra os jornais privados, apreendendo-os na via pública, o que "configura um atentado à liberdade de imprensa nos termos do artigo 76, da Lei de Imprensa", como denunciou o Conselho Nacional de Comunicação Social, na sua última deliberação.
Contra os jornais públicos não se conhecem semelhantes práticas.
E assim vão os dias na imprensa angolana...
Para lá da ficção (crónica publicada no Novo Jornal)
É um lugar comum dizer que a realidade supera a ficção. Mas há histórias que ultrapassam de tal forma aquilo que julgávamos possível que justificam a repetição do axioma.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Um exemplo de Homem e de religioso
Calou-se ontem, vítima de AVC, uma das vozes mais ouvidas em Angola.
O frade franciscano ergueu-se sempre que foi preciso e, com a sua postura dessassombrada, tornou-se numa das vozes mais ouvidas em Angola, usando as suas características de líder, a favor dos mais necessitados.
Em 2008, foi eleito pela redacção do Novo Jornal como «figura da sociedade civil do ano» por se ter feito porta-voz na "denúncia implacável da corrupção, da violência doméstica, da feitiçaria, da violação dos direitos humanos e em defesa da liberdade de imprensa, do respeito pelo género e do direito à diferença".
E fê-lo sempre sem perder a humildade, sem falsos moralismos, como Homem e religioso do seu tempo, no tempo exacto.
O frei João Domingos foi um exemplo de pastor que está sempre atento aos perigos que ameaçam o seu rebanho. Nunca se colocou à frente, nem ao lado dele, mas no meio. Entre os que dele necessitavam.
Vai fazer falta a Angola. Muita.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Complexo da cor
O complexo da cor em Angola, como noutros países, não se resolve por decreto. Ultrapassa-se com educação. Aos políticos cabe dizê-lo, como já fez o rapper angolano Yannick Afroman. Mas há que ouvi-lo bem e até ao fim para que a revolução mental se faça. Porque há muito quem interprete mal a mensagem do compositor mais político de Angola.
Dicionário abreviado do
mwangolé (angolano) - português
Banda - rua, bairro
Bumbo - homem negro
Pula - homem branco, proveniente de Portugal (em calão)
Mundele - homem branco (em quimbundo)
Bué - muito
Laton - mulato
Latona - mulata
Matumbo - boçal, rafeiro, ignorante
domingo, 8 de agosto de 2010
Nomes
sábado, 7 de agosto de 2010
Informação a cores
O consumo de álcool em Angola é um assunto sério e merecedor de atenção.
Bebe-se cada vez mais e cada vez mais cedo.
Homens, mulheres, jovens e até crianças entregam-se à bebida, sem freios.
E há quem, por ganância, ajude a manter o gargalo da garrafa para baixo.
Como se não bastassem as festas organizadas pelas marcas de bebidas alcoólicas, que promovem o consumo entre os mais novos, associando o glamour das estrelas musicas ao álcool.
Há quem encontre na fermentação caseira um negócio de alto rendimento. Com baixos custos de produção e rentabilidade máxima, como bem retrata esta reportagem da TV Zimbo.
O canal privado surgiu há um ano e revolucionou o panorama televisivo, que até aí contava com dois canais públicos.
A TPA1, um canal cinzento e com uma informação parcial.
E a TPA2 que, sob gestão privada, tem uma programação cor-de-rosa, limitada a programas light’s e sem conteúdo informativo.
Para além de uma informação a cores, a TV Zimbo teve o grande mérito de colocar um espelho sobre Angola.
Falta cuidar da restante programação.
E retirar da antena os programas que achincalham as pessoas que, supostamente, vão à procura de justiça. Porque essa não é feita nos ecrãs de televisão, muito menos com os critérios utilizados. Ou falta deles.
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Ciência, pois! (crónica publicada no Novo Jornal)
A ciência é uma das maravilhas do mundo e, nos últimos anos, tem avançado a um ritmo alucinante fazendo da ficção científica um conceito obsoleto.
Há, no entanto, domínios onde a ciência é de difícil penetração e aquilo que ela proporciona gerador de desordem. Resistência. Condenação.
Há, no entanto, domínios onde a ciência é de difícil penetração e aquilo que ela proporciona gerador de desordem. Resistência. Condenação.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
Mário Bettencourt Resendes (1952-2010)
Foto: Diário de Notícias
De tudo o que se disse e escreveu sobre Mário Bettencourt Resendes destaco uma frase do músico Pedro Abrunhosa, com um sublinhado meu: "Era uma pessoa com uma cultura vastíssima e impermeável às influências, características que hoje escapam aos jornalistas".
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Uma Affrikkanitha jazzy
Afrikkanitha é um nome do jazz angolano e uma das promessas do afro jazz.
Aos 33 anos, a cantora e compositora surge com um álbum, produzido pelo marido, Simmons Massini, onde ultrapassa fronteiras musicais e linguísticas.
Afrikkanitha mistura em «Weza» o soul, com o jazz, o rock e o funk, cantado em inglês, francês, português e em dialectos africanos, como o bantu, mas o registo nunca abandona o jazz, o seu território natural.
Sobre ela, o crítico de jazz angolano, Jerónimo Belo escreveu: “Afrikkanitha é a mais jazzy cantora angolana, mulher de grande futuro. Atente-se na qualidade e inteligência da voz, a ciência com que aborda os versos, o notável sentido do tempo, a competência de quem sabe que a paixão não basta para fazer uma boa profissional. E ainda um evidente bom gosto na escolha do reportório e dos companheiros musicais. Esta mulher, a Afrikkanitha, uma das coisas que melhor sabe fazer é, certamente, cantar”.
Basta ouvi-la para perceber o que Jerónimo Belo quis dizer.
Quem as controla?
Foto: Afonso Francisco/Novo Jornal
Em Luanda, as motos não se submetem ao Código de Estrada.
Não obedecem a regras.
Só à vontade de quem as conduz.
E parece que vivem num mundo à parte.
É vê-las a circular no asfalto,
nos passeios,
e nos locais destinados exclusivamente a peões.
Elas passam sinais vermelhos,
nas barbas da polícia, que nem pestaneja à sua passagem.
Andam em contramão, até nas vias de sentido único,
e surgem de qualquer lado, mesmo dos mais inusitados.
Circulam com mais do que um passageiro - às vezes dois, às vezes mais - sem qualquer acessório de segurança, como o capacete que, segundo o novo Código de Estrada, é obrigatório.
Acessório, aliás, que para os motociclistas não passa de um adereço, sujeito a modas, como a que agora está em voga: o capacete de cavaleiro.
É um adereço bonito, mas numa moto não serve para nada, para além de segurar o penteado.
Em Luanda, as motos são mais perigosas e letais do que qualquer outro veículo que com elas disputa o asfalto.
E matam muitos jovens.
Porque não há quem as controle.
Só não percebo porquê?
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