segunda-feira, 14 de junho de 2010

Sem sinal

“O Internet Explorer não consegue mostrar a página Web” é a frase mais assídua nos ecrãs dos computadores por estes dias.
A internet em Luanda - já para não falar nas outras províncias - tem altos e baixos, que tornam impaciente a “condução” na auto-estrada da informação, sobretudo quando a falta de tempo exige rapidez nas manobras.
Nas últimas semanas, o tráfego tem sido constantemente interrompido.
E a paciência esgota-se com uma velocidade proporcionalmente inversa à do serviço disponibilizado pelas empresas que em Angola oferecem o sinal.
Oferecem, é como quem diz.
Vendem e a um preço elevado.
Elevado demais para um sinal tão fraco.

domingo, 13 de junho de 2010

A outra



No ano passado, quando se discutia a nova Constituição de Angola, o partido Nova Democracia sugeriu a inclusão da poligamia na nova Carta Magna angolana.
A razão era a aceitação informal da "outra" nas relações afectivas.
A música de Matias Damásio foi usada como argumento por Quintino Moreira, o líder da coligação que surgiu nas eleições legislativas de 2008 e que, apesar da «juventude», conseguiu arrebatar alguns lugares no parlamento.
A proposta da Nova Democracia acabou por cair por falta de apoios.
O MPLA, partido esmagadoramente maioritário, refugiou-se no silêncio; os restantes nem sequer se pronunciaram.
A poligamia não foi institucionalizada, mas as outras continuam a fazer parte do quotidiano dos casais, porque aceitando-se uma há que manter a porta aberta para as que vierem a seguir...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Zé Manel em dose dupla





Ando há anos à procura de discos de Zé Manel, músico da Guiné Bissau radicado nos Estados Unidos da América e não encontro.
Uma voz única e inconfundível, que integrou a primeira formação do grupo guineense Super Mama Djombo, e uma das melhores de África.
O primeiro tema, cantado em inglês, é um hino aos governantes africanos para que expurgem do continente os males que o adoecem. No segundo, Zé Manel canta as filhas do seu país na sua língua materna, o crioulo.

Ganância (crónica publicada no Novo Jornal)

 Bernard Madoff, o especulador norte-americano que precipitou para a ruína três milhões de investidores em todo o mundo com o maior esquema em pirâmide Ponzi de todos os tempos, confidenciou a um parceiro de reclusão que não tem pena das suas vítimas, porque “eram ricas e gananciosas”.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A ilha de Amílcar Cabral na voz de Margareth



ILHA

Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

Um poema de Amílcar Cabral, escrito em 1945, na cidade da Praia, Cabo Verde, que a cantora angolana Margareth do Rosário levou para o seu último disco, dando uma «Nova Dimensão» ao legado literário de um lutador pelas independências africanas.
A memória transmitida de forma refrescante.
A minha comemoração do Dia de Portugal, porque exaltar a Nação Portuguesa é celebrar as independências de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e S. Tomé e Principe.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Armas a mais

Em Luanda há armas a mais.
A polícia tem armas,
Os militares têm armas,
Os ladrões têm armas,
Os vigilantes e guardas das empresas de segurança têm armas,
Os cidadãos têm armas, menos 70 mil desde que o governo lançou a campanha de desarmamento, mas continuam a ter muitas.
A campanha de desarmamento dos civis vai continuar por mais dois anos e até lá o ministro do Interior, Roberto Leal Monteiro, espera recolher as mais de 25 mil armas de guerra que estão na posse das empresas de segurança privada.
É bom que o faça, a bem da paisagem urbana, mas para que a campanha iniciada em 2008 surta real efeito é preciso primeiro desarmar as mentes, como canta o rapper Yannick Afroman.

domingo, 6 de junho de 2010

Beleza natural (2)

É cada vez mais difícil encontrar uma mulher de carapinha nas ruas de Luanda - as angolanas renderam-se às extensões, aptando por longos cabelos lisos ou ligeiros ondulados - mas quando se encontra vale bem a pena.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cabo Verde e Angola


Aqui estão dois músicos de excepção: Tito Paris (Cabo Verde) e Paulo Flores (Angola).
Duas bandeiras dos respectivos países que eu hasteio onde quer que vá.
E que sublinham que as fronteiras geográficas são instrumentos político-administrativos.
A música, como os cidadãos, é do mundo.

Candongueiros de Hildebrando


Hildebrando de Melo andou a pintar alguns ícones da cidade de Luanda para um projecto que desenvolveu, em 2006, na casa de cultura Brasil/Angola e nesse processo resolveu concentrar o olhar nos taxistas da capital.
“Não podiam passar despercebidos os candongueiros, que todos os dias nos entram pelos olhos”, explicou o jovem pintor, numa entrevista a Adebayo Vunge, publicada no Novo Jornal.
O resultado é uma série de quadros que reflectem bem os azuis e branco.
Está lá tudo: a confusão, o excesso de passageiros e de ruído, a anarquia, o desregramento…
Partilho da forma como o pincel de Hildebrando vê os candongueiros – “moscas” sem as quais a “natureza fica desequilibrada”, porque afinal de contas “têm uma grande utilidade pública, por transportarem a maior massa de trabalho de Angola” - a metáfora é do artista.
Porque um dia, os candongueiros irão sair de cena (o desenvolvimento do país assim o dita) fica o registo para memória futura. E bom.

Mais do que infantil (crónica publicada no Novo Jornal)

O ataque de Israel a navios com 10 mil toneladas de ajuda humanitária para a Palestina revela um total desprezo por toda e qualquer vida humana que não seja a do «povo eleito», como os judeus se autointitulam por, alegam, Deus os ter escolhido para receberem as revelações da Tora (livro sagrado).

terça-feira, 1 de junho de 2010

Crianças em Angola

Rostos expressivos, cheios de vida

amizade

festa

alegria

jogo

dança

domingo, 30 de maio de 2010

And the winner is... Sebastião Vemba


Com a devida vénia à Aoani d'Alva, a quem fui roubar a fotografia, aqui fica a imagem que testemunha o momento que todos nós antevíamos: Sebastião Vemba trouxe para Angola o prémio CNN/Multichoice na categoria de notícias gerais em língua portuguesa.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Só se eu for doida


Gosto da forma como alguns cantores angolanos transpõem para as suas músicas os problemas que mais afectam a sociedade deste país.

“Não nasci para sofrer
Não cresci para apanhar
Não investi para falhar”

É preciso dizer mais alguma coisa?
Chama-se Pérola, jovem cantora que apostou na kizomba, com um cheirinho de zouk das Antilhas, para dizer não à violência doméstica.

Abusos de poder (crónica publicada no Novo Jornal)

Um administrador distrital de Moçambique foi destituído por ter dado ordem de prisão a um homem, que foi julgado e condenado, só por ter criticado a sua prestação enquanto governante.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Na Belavista

Na província do Uíge o comércio é colorido e tem cheiro: o do pão fresco.
Os produtos esgotam-se na fachada, lá dentro entra-se no território íntimo e reservado de uma habitação da Belavista.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Staff Benda Bilili



Quando julguei que já nada me espantava, eis que deparo com os Staff Benda Bilili, uma das maiores revelações da música africana da última década e que tiveram em 2009 o seu ano de consagração internacional.
Os Staff Benda Bilili são um grupo da República Democrática do Congo que integra músicos paraplégicos, vítimas de poliomielite em crianças, que dormiam e ganhavam a vida nas ruas da capital congolesa a cantar e a tocar.
A banda nasceu no jardim zoológico de Kinshasa, onde ainda ensaiam. Aos cinco músicos iniciais, juntou-se um jovem, de 17 anos, exímio guitarrista de rua. Juntos misturam ritmos tradicionais, funk e a versão local da rumba, com instrumentos criados pelos próprios com objectos que encontram na rua.
A história do grupo está retratada no documentário francês «Benda Bilili», dos realizadores Renaud Barret e Florente de la Tullaye, que estreou numa sessão paralela do Festival de Cannes, na Quinzena dos Realizadores. Ao longo de cinco anos, os dois realizadores captaram imagens que vão desde a fundação da banda até concertos em prestigiadas salas europeias.
O álbum de estreia dos Staff Benda Bilili «Trés, trés fort» alcançou o primeiro lugar da World Music Charts Europe, em Maio de 2009; foi considerado o melhor do ano pela revista «fRoots»; e eleito o melhor álbum de world music de 2009 pela «Mojo». Também em 2009 receberam o prémio Womex, que normalmente só é entregue a músicos em final de carreira, como reconhecimento do seu exemplo extraordinário de dedicação à música.
A vida que os rodeia e a doença são as fontes onde os músicos bebem para compor.

Há candongueiros e candongueiros

Dos candongueiros (como são conhecidos os taxistas em Luanda) já se disse de tudo.
Que são mal educados;
que não respeitam as regras de trânsito, nem os outros automobilistas;
que põem a música muito alto e incomodam os passageiros;
que fazem especulação de preços;
enfim, um sem número de críticas que dão uma imagem pouco simpática dos homens que transportam a grande maioria dos luandenses.
Mas há também quem fuja ao retrato... porque aqui, como em tudo, há os e os.

domingo, 23 de maio de 2010

Na banda não tem energia


Este fim-de-semana estivemos sem energia. Valeu o gerador... mas não é para todos. O vai e vem tem vindo a diminuir nalgumas zonas de Luanda. No musseque vai mais do que vem, como canta Yannick Afroman, o homem do rap que faz as melhores crónicas sociais de Angola. Ora ouçam lá.

Massacres

No dia 23 de Julho de 2008, Luanda adormeceu horrorizada.
Oito jovens que confraternizavam no largo da Frescura, no Sambizanga, foram mortos.
De uma carrinha Hiace irromperam vários homens que descarregaram as metralhadoras sobre os oito rapazes.
Uma das vítimas, antes de morrer, soprou os nomes de dois dos carrascos, identificados como agentes da autoridade.
Em poucos dias, a Polícia Nacional (PN) apresentou sete elementos da corporação suspeitos da autoria do crime, que ficou conhecido como «o massacre da Frescura».
Foram julgados e condenados a 24 anos de cadeia, cada um.
No dia 9 de Maio deste ano, três jovens da Samba foram levados por agentes da polícia.
Primeiro foi Liro, um delinquente cadastrado.
Depois Kadu, seu primo, e pelo caminho apanharam Kleber, que regressara há cinco meses a Angola, depois de concluir o curso na Zâmbia.
Os corpos dos três apareceram dois dias depois na morgue do hospital Maria Pia, baleados.
Inconformado, o pai de Kleber fez queixa na divisão da Samba da PN. Foi recusada.
José Lemos regressou uma semana depois com testemunhas que confirmaram que os jovens foram levados por agentes da autoridade. A queixa foi aceite.
A notícia ribombou nas televisões, rádios e jornais.
O Comando-Geral da Polícia foi obrigado a vir a público dizer que “ninguém manda matar na polícia”, que em Angola “não há esquadrões da morte”.
O comando não negou o envolvimento de agentes.
Pelo contrário.
O caso "está a ser investigado, há fortes indícios de que foram agentes da corporação", disse, “se se confirmarem as suspeitas a divisão da Samba será responsabilizada”.
Para o pai de Kleber é um sinal de esperança.
A vida do filho já ninguém lha devolve.
Também a de Liro, o jovem delinquente que arrastou para a tragédia dois inocentes.
Sempre que um criminoso insiste na reincidência acaba morto.
As execuções sumárias são socialmente aceites quando envolvem criminosos.
Os inocentes são chorados.
O filme repete-se.
Até que alguém ponha cobro ao argumento e mude o guião.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

É Dom Cacho




Os Tuneza (uma espécie de gato federento de Luanda) foram a Portugal à procura das melhores uvas. Não trouxeram o melhor vinho, mas que é dos mais baratos, lá isso é!... Valha-nos a boa disposição da dupla de humor. Cuía bué (são fixes)