segunda-feira, 5 de julho de 2010

Não se desenvolve um país com magia

Foto: Afonso Francisco/Novo Jornal
Paul Krugman esteve em Angola para participar numa conferência, organizada pelo BPC e o Facide, subordinada ao tema «Como construir uma economia forte».
Com a frontalidade que o caracteriza, o Nobel da Economia de 2008 não dourou a pílula e qualificou Angola como "pobre" porque "um país com carências na saúde e na educação não pode ser desenvolvido".
O desenvolvimento de um país "não se faz com magia", mas com pragmatismo e humildade na governação, afirmou o economista norte-americano, conhecido por defender a economia social.
Krugman deixou claro que o dinheiro arrecadado com a venda do petróleo deve ser investido na saúde e na educação, por serem os sectores que garantem a estabilidade social e contribuem para diminuir a pobreza.
Tudo o resto é efémero e não chega a todos, tendo como consequência um país "tremendamente assimétrico", como constata o economista angolano Justino Pinto de Andrade, na sua crónica «Rios de Tinta», publicada no semanário «A Capital».
"(...) Se somos ricos, será apenas no potencial.
Na realidade o nosso país é pobre, demasiado caro, muito desigual, tremendamente assimétrico, e bastante penalizador para os seus segmentos mais desfavorecidos".

domingo, 4 de julho de 2010

No dia de Cabo Verde



Cabo Verde comemora amanhã, 5 de Julho, 35 anos de independência.
Altura ideal para evocar aquela que é para mim a voz de Cabo Verde: Ildo Lobo.
Ouvi-o pela primeira vez em Outubro de 2004.
Impressionou-me aquela voz;
impressionou-me a postura ;
impressionaram-me as mornas que saíam daquele corpo vestido de negro (era assim que ele se apresentava em palco: roupa preta; a mão direita no bolso das calças).

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Hospital doente

Luanda precisa de hospitais.
A cidade tem milhões de pessoas (mais de quatro, segundo as estatísticas, mas podem ser nove milhões) a quem é preciso tratar da saúde.
Há quatro anos, inaugurou-se um novo hospital público.
O Hospital Geral de Luanda foi construído com oito milhões de dólares, financiados pelo governo da República Popular da China.
Tem capacidade para internar 100 doentes.
Dava guarida a mais de 150.
Ontem começou a ser evacuado.
Vai fechar as portas.
As paredes cederam.
Algumas das fissuras que começaram a insinuar-se, logo após a inauguração do edifício construído por uma empresa chinesa, escancararam.
Abriram janelas para a rua.
Técnicos do Ministério do Urbanismo e Construção foram ao local e recomendaram a evacuação urgente.
A Governadora Provincial de Luanda, Francisca do Espírito Santo, mandou executar a ordem.
Os doentes foram transferidos para outras unidades, já saturadas.
Agora todos se interrogam:
Como foi isto possível?

Uma história de Paulo Jorge


Não encontrei melhor forma para assinalar a partida de Paulo Teixeira Jorge, nacionalista angolano que foi ontem a enterrar, do que publicar excertos do texto «A Balalaica Branca» de Jaime Azulay, correspondente do Jornal de Angola em Benguela, porque as histórias contam os homens.
A «Balalaica Branca» é um diálogo entre dois chefes militares, durante um tiroteio à cidade de Benguela, na altura em que Paulo Jorge era governador da província.
Pena que o deputado, que desempenhava actualmente as funções de secretário do MPLA para as Relações Exteriores, não tenha deixado as suas memórias, como “prometeu que em breve faria”, porque as lembranças que “iria deixar eram fundamentais para perceber o que foi a diplomacia da fase de gestação e debutante da República Popular de Angola”, assinala Fernando Pereira, no Novo Jornal.
“Com Paulo Jorge desapareceu uma parte do espólio, de um tempo em que a afirmação de valores de solidariedade, de justiça social e igualitarismo faziam parte do léxico, e de alguma prática das nossas convicções pessoais e políticas”, justifica o cronista.
“Paulo Jorge morreu a 26 de Junho, sabendo-se que sem grandes recursos, e com ele fica o exemplo de um homem fundamental nos alicerces do País e indispensável no colocar de tijolos da edificação de uma nova geografia política na África Austral”.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Não ver Saramago (crónica publicada no Novo Jornal)

Na terça-feira em conversa, on-line, com um amigo jornalista ele contou-me uma história que viveu com José Saramago.
O escritor falecido há uma semana tinha ido a Viseu lançar um dos seus livros, numa iniciativa organizada pelo Sindicato dos Professores da Região Centro, no final da década de 90.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Maternidade próxima


Fotos: Carlos Alberto «Cabeto»

Em África mãe e filho andam sempre juntos. É uma proximidade prática, nem sempre fácil para um e para outro, mas sempre benéfica para ambos.

terça-feira, 22 de junho de 2010

A Senhora da música do Mali


É uma das grandes senhoras da música do Mali, país donde provém, segundo alguns estudiosos, o ADN do blues.
Cantora, compositora e guitarrista, Rokia Traoré é filha de um diplomata que lhe abriu caminho a várias influências captadas nas muitas viagens que a família fez, mas a tonalidade da sua música pertence, sem margem para dúvida, ao Mali, sendo visíveis as influências que Ali Farka Touré (outro génio da música africana) teve no seu percurso.
Membro do grupo étnico Bambara, Rokia ganhou em 1997 o prémio  revelação africana, atribuído pela Radio France Internacional.
O seu primeiro álbum «Mouneissa», gravado nesse ano, foi aclamado pela forma como Traoré combinou várias tradições musicais malianas, como o ngoni e o balafon, e foi um sucesso de vendas na Europa.
O seu segundo disco«Wanita» foi considerado pelo «The New York Times» como um dos álbuns do ano de 2000.
A consagração internacional começava a cimentar-se e, em 2009, a cantora ganhou na categoria de Melhor Artista na sessão inaugural do Songlines Music Awards, organizado pela revista britânica «Songlines».
Este tema foi extraído do seu quarto álbum, gravado em 2008, «Tchamantché».
É um prazer ouvi-la.

O pôr-do-sol a caminho do Huambo



Em África o sol, quando se põe, tem tonalidades que vão do amarelo ao vermelho vivo, mas não se deixa apanhar. Fez fintas à máquina e ganhou.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Entrevista a Saramago





































Em Novembro de 2003 tive oportunidade de entrevistar José Saramago, após uma visita a Pinhel, pequena cidade do distrito da Guarda, no interior de Portugal.
Na entrevista ao Jornal do Centro  (semanário publicado em Viseu, do qual fui directora e que em 2004 ganhou o prémio Gazeta Imprensa Regional, atribuído pelo Clube de Jornalistas ao melhor jornal regional do país), Saramago revela a dimensão do Homem que era.

domingo, 20 de junho de 2010

Eterno Saramago


Quatro dias de refúgio no Huambo - cidade massacrada durante a guerra, hoje em notável recuperação – afastaram-me das notícias.
E foi com surpresa e pesar que, à chegada a Luanda, recebi a notícia: "Morreu (José) Saramago.
Gosto de Saramago e basta-me isso.
Não é de hoje (na morte o coro dos elogios sobe de tom com uma força desconcertante), é de sempre.
Desde que o comecei a ler.
O Nobel da Literatura deu-lhe maior visibilidade e ofereceu-me um novo impulso para me embrenhar na obra do autor de «Levantados do Chão».
Não gostei de tudo o que li, como não gostei de todos os livros de outros autores, mesmo daqueles que estão no topo do topo das minhas preferências.
Mas identifiquei-lhe sempre um traço próprio e uma forma única de, nas suas reflexões, interpelar o leitor e reconheci-lhe em todos os momentos legitimidade para falar, para elevar a sua voz contra as injustiças do mundo ou para defender o que lhe parecia justo.
Por isso, foi sempre com incómodo que vi Saramago ser injustiçado, não criticado, porque a crítica faz-se com argumentos e no meio das polémicas em que o Nobel da Literatura português se viu envolvido encontrei sempre muito pouca ponderação e razoabilidade, salvo algumas excepções.
A última dessas polémicas andou à volta de declarações de Saramago sobre o seu livro «Caím».
Custou-me a dureza das palavras com que se lhe dirigiram; feriu-me o ódio que vi plasmado em muitas das reacções; e pesou-me o desrespeito que, uma vez mais, senti em relação a uma das personalidades portuguesas que mais longe e mais alto elevaram o nome de Portugal e a língua portuguesa.
O episódio serviu de pretexto ao Paralelos que escrevi, na edição 92 do Novo Jornal, publicada a 23 de Outubro de 2009 (que republico neste blogue).
Hoje recuso comentar a ausência das duas mais altas figuras de Portugal - Presidente da República e Presidente da Assembleia Nacional - no funeral do autor de «Todos os nomes».
Limito-me a um até sempre Saramago.
Porque é dos poucos portugueses com direito à imortalidade.

Come chocolates, come (crónica publicada no Novo Jornal)

Passei a infância a ser reprimida – “Não comas chocolate, olha que faz mal aos dentes”. Entrei na adolescência a ouvir: “Não comas chocolates que provoca borbulhas”. Na maioridade o vaticínio repetiu-se até à náusea – “Não comas chocolate, não vês que engorda”.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O porteiro


Por causa do álcool, o porteiro entrou num sono profundo... perdeu a consciência e o portão.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A espera


No Sango, província do Uige, a chegada de um político é aguardada com... expectativa.

A maior...



O recorde para a boca mais larga do mundo pertence a um angolano.
Francisco Domingos Joaquim tem o feito inscrito no livro Guiness World Record graças às suas medidas generosas: 17 centímetros de largura e 25 centímetros de comprimento, devidamente certificadas por testes médicos.
O jovem de 20 anos consegue colocar e retirar da boca uma lata do refrigerante nacional «Blue», pelo menos, 14 vezes num minuto, como demonstrou em Roma, no programa onde todos os anos são apresentados os novos recordes mundiais.
Chiquinho, como é conhecido, ganhou em audiência – o jovem foi descoberto numa das exibições que faz nos bairros e nos mercados de Luanda – mas não se pode dizer que o feito seja digno de registo.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Mingas de ouro



O Homem é voz;
o Homem é verbo;
o Homem é alma.
Ruy Mingas foi homenageado no dia 5 de Junho, em Paris.
A Academia Francesa de Artes, Ciências e de Letras atribuiu-lhe a medalha de ouro para estrangeiros pelo seu contributo artístico, por ter musicado muitos dos poemas escritos num contexto histórico de luta contra o colonialismo e de luta pela independência de Angola.
O seu nome está ligado a muitas das músicas que fazem o cancioneiro angolano e português. «Os meninos do Huambo», que Paulo Carvalho celebrizou em Portugal, é apenas um exemplo. Muitos outros têm a sua assinatura.
“Sinto-me particularmente orgulhoso pelo meu país – afirmou numa entrevista ao Novo Jornal - porque não foi Ruy Mingas, uma figura abstracta que foi galardoada, mas sim o cidadão de Angola cuja obra é um pouco esquecida no meu país de origem, mas foi reconhecida por uma organização académica da dimensão desta associação e de um país, que não é só uma potência mundial, mas tem um peso significativo em termos culturais em todo o mundo”.
Homenageado em França, nunca no seu país.
Ruy Mingas já se surpreendeu por esta omissão.
Hoje está “completamente indiferente” por “nunca” ter sido “sequer referenciado” por tudo o que fez pela música angolana.
O seu lugar na História cultural e política de Angola está assegurado, o seu legado também.
E, essas, são homenagens bastantes, capazes de derrubar a indiferença dos que têm efemeramente o poder.

Sem sinal

“O Internet Explorer não consegue mostrar a página Web” é a frase mais assídua nos ecrãs dos computadores por estes dias.
A internet em Luanda - já para não falar nas outras províncias - tem altos e baixos, que tornam impaciente a “condução” na auto-estrada da informação, sobretudo quando a falta de tempo exige rapidez nas manobras.
Nas últimas semanas, o tráfego tem sido constantemente interrompido.
E a paciência esgota-se com uma velocidade proporcionalmente inversa à do serviço disponibilizado pelas empresas que em Angola oferecem o sinal.
Oferecem, é como quem diz.
Vendem e a um preço elevado.
Elevado demais para um sinal tão fraco.

domingo, 13 de junho de 2010

A outra



No ano passado, quando se discutia a nova Constituição de Angola, o partido Nova Democracia sugeriu a inclusão da poligamia na nova Carta Magna angolana.
A razão era a aceitação informal da "outra" nas relações afectivas.
A música de Matias Damásio foi usada como argumento por Quintino Moreira, o líder da coligação que surgiu nas eleições legislativas de 2008 e que, apesar da «juventude», conseguiu arrebatar alguns lugares no parlamento.
A proposta da Nova Democracia acabou por cair por falta de apoios.
O MPLA, partido esmagadoramente maioritário, refugiou-se no silêncio; os restantes nem sequer se pronunciaram.
A poligamia não foi institucionalizada, mas as outras continuam a fazer parte do quotidiano dos casais, porque aceitando-se uma há que manter a porta aberta para as que vierem a seguir...

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Zé Manel em dose dupla





Ando há anos à procura de discos de Zé Manel, músico da Guiné Bissau radicado nos Estados Unidos da América e não encontro.
Uma voz única e inconfundível, que integrou a primeira formação do grupo guineense Super Mama Djombo, e uma das melhores de África.
O primeiro tema, cantado em inglês, é um hino aos governantes africanos para que expurgem do continente os males que o adoecem. No segundo, Zé Manel canta as filhas do seu país na sua língua materna, o crioulo.

Ganância (crónica publicada no Novo Jornal)

 Bernard Madoff, o especulador norte-americano que precipitou para a ruína três milhões de investidores em todo o mundo com o maior esquema em pirâmide Ponzi de todos os tempos, confidenciou a um parceiro de reclusão que não tem pena das suas vítimas, porque “eram ricas e gananciosas”.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

A ilha de Amílcar Cabral na voz de Margareth



ILHA

Tu vives — mãe adormecida —
nua e esquecida,
seca,
fustigada pelos ventos,
ao som de músicas sem música
das águas que nos prendem…

Ilha:
teus montes e teus vales
não sentiram passar os tempos
e ficaram no mundo dos teus sonhos
— os sonhos dos teus filhos —
a clamar aos ventos que passam,
e às aves que voam, livres,
as tuas ânsias!

Ilha:
colina sem fim de terra vermelha
— terra dura —
rochas escarpadas tapando os horizontes,
mas aos quatro ventos prendendo as nossas ânsias!

Um poema de Amílcar Cabral, escrito em 1945, na cidade da Praia, Cabo Verde, que a cantora angolana Margareth do Rosário levou para o seu último disco, dando uma «Nova Dimensão» ao legado literário de um lutador pelas independências africanas.
A memória transmitida de forma refrescante.
A minha comemoração do Dia de Portugal, porque exaltar a Nação Portuguesa é celebrar as independências de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e S. Tomé e Principe.