segunda-feira, 12 de maio de 2014

Escravos ou sábios? (Crónica publicada no Novo Jornal*)


              A cantar em inglês ou na sua língua materna, o iorubá, Asa nunca desilude


Bukola Elemide nasceu em Paris, em 1982. Com dois anos, os seus pais resolveram regressar à Nigéria e, no país das suas raízes, aprendeu a cultura que lhe corria nas veias e descobriu a sua paixão pela música.
Em Lagos, a criança que se tornou Asa (pronuncia-se Asha), encontrou na eclética colecção de discos do seu pai os sons do soul e de temas tradicionais da Nigéria, que decidiram a sua vocação.
Com Marvin Gaye, Fela Kuti, Bob Marley e Sunny Ade Ebenezer Obey na bagagem, ainda jovem fez-se estudante da escola de música do saxofonista inglês Peter King. Ali desenvolveu o seu estilo musical entre o soul e a pop, escrevendo em inglês e na sua língua materna, o iorubá.
Em 2004, Asa enviou uma gravação para uma associação artística francesa, que decidiu apoiá-la. Regressou a França, onde deu uma série de concertos, e arrebatou a crítica. Dois anos depois, assinou com uma editora e, em 2007, nasceu «Beautiful Imperfection» que junta as influências de trás e as que ganha mais tarde ao ouvir outros conterrâneos seus, como Erika Badu, D’Angelo, Rafael Saadig, Lauryn Hill e Angelique Kidjo.
Apesar da beleza imperfeita que a capa anuncia logo à partida, com uma foto da artista sem artifícios estéticos e com uma lente dos óculos partida, o disco está longe da imperfeição. Dele brota um som refrescante, uma voz rouca e sem rugosidades e uma mensagem, que oscila entre a dor amorosa da adolescência e as grandes questões da humanidade.
No tema de abertura, Questions, Asa começa por perguntar quantos sonhos de infância no feminino ficaram para trás, quantos filmes se tornaram reais, quantas pessoas desejavam ser outra pessoa e quantos bebés vão nascer apenas para morrer.
A canção que nos introduz no universo musical da jovem Bukola tem um tom quase profético, que antecipa o que se passa com as suas irmãs nigerianas, arrancadas à força das famílias, e que fez despontar um movimento internacional a favor do seu regresso a casa.
“Como é que as pessoas estão tão ocupadas e não encontram tempo para o amor/Qual é a verdade por trás das razões que as levam para a guerra/Porque é que há tantas religiões e tão pouco amor/será que algum dia eu vou conhecer a verdade?”
As perguntas que Asa levanta no seu primeiro trabalho só são possíveis porque cresceu com amor e beneficiou de educação e instrução, direitos que devem ser de todas as crianças, qualquer que seja a sua proveniência e raça, e com os quais pôde decidir o futuro que quis para si, ao contrário do que acontece com 300 jovens nigerianas raptadas em nome da religião e da invocação herege de um deus.
Como diz Malala Yousafzai, jovem paquistanesa que foi baleada no regresso a casa e que se tornou símbolo da luta das meninas pelo direito ao ensino, o grupo islamita Boko Haram, que reclamou o rapto, cometeu um acto hediondo em nome de uma religião que não compreende, nem estudou. Se tivesse estudado o Alcorão saberia que a palavra islão, segundo Malala, quer dizer “paz” e que não há nada no livro sagrado que legitime, em nome de Ala, o rapto de raparigas, nem a sua venda para exploração sexual.
Mal vai um país que permite que, durante anos, um grupo radical islâmico actue no seu território, tentando implantar num estado democrático um regime opressor que esmaga os direitos de uma parcela dos seus cidadãos, as mulheres, em nome de uma religião.
“O mundo deve unir-se e fazer todos os esforços para libertar essas meninas e trazer os sequestradores à Justiça”, declarou a ONU. Três países já mandaram reforços para uma luta que o governo de Goodluck Jonathan tem estado a perder por falta de determinação ou vontade de travar um grupo terrorista, preferindo antes silenciar os que apelam ao regresso das suas filhas, ao consentir que a sua mulher, Patiente Jonathan, ordenasse a detenção da mãe de uma jovem raptada frente ao Parlamento.
O Presidente nigeriano prefere não levantar ondas para não perder votos nas presidenciais que se avizinham, mas o consentimento cúmplice de um ultraje, como se referiu ao rapto a UNICEF, pode ser o seu fim. Porque não há no mundo espaço para tamanho desvio àquilo que deve ser o dever de um governante.
Asa apresenta-se no seu primeiro disco com um tema que levanta questões, mas que não se limita a interrogar. No final da música há uma frase que o Presidente do seu país deve ouvir: “Porque é que nós temos de crescer para ser sábios”.  

*Publicado no dia 9 de Maio de 2014

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