segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Desprezo (crónica publicada no Novo Jornal*)

Roger Abdelmassih era um médico bem-sucedido. Uma figura do jet set brasileiro, amante dos holofotes. Circulava frequentemente por festas, era figura assídua de programas de televisão. A sua fotografia surgia constantemente nas revistas, ao lado de casais famosos e felizes, alguns com bebés ao colo. O especialista em fertilização ajudou milhares de mulheres a engravidar e as aparições públicas serviam para sedimentar a sua fama.
Em 2008, chegaram aos ouvidos de uma repórter da «Folha de S. Paulo» queixas contra o médico por abusos sexuais. Um advogado contou a Lilian Christofoletti, durante um almoço, que uma amiga “havia sido molestada sexualmente” por Abdelmassih e outras mulheres também teriam passado por situações semelhantes. A Promotoria já estava, inclusive, a fazer investigações, com base em relatos de uma ex-funcionária do médico.
Chocada com as revelações, a jornalista apresentou a história à Folha de S. Paulo. “A recomendação foi de muita cautela e muita apuração. Reuni documentos, como boletins de ocorrência e depoimentos registados em cartório. O difícil era encontrar alguma mulher disposta a conversar abertamente sobre o caso, como o jornal me pedia”, recorda a repórter.
Após muita resistência, Lilian conseguiu que uma mulher falasse sob anonimato. A fonte dizia que tinha sido molestada dentro do consultório. Não estava sedada, como acontecera com outras. Estava lúcida e apavorada. Um depoimento levou a outro. Todas as mulheres apresentavam o mesmo perfil. Andavam na casa dos 35 anos e eram bem-sucedidas profissionalmente.
“Vi a dor de relembrarem suas histórias, sempre com os olhos marejados de raiva e de medo. Raiva por se sentirem enganadas e usadas justamente na fase mais delicada de suas vidas e pelo médico que supostamente as ajudaria a engravidar. E medo da opinião pública, de serem julgadas e desacreditadas pelos vizinhos, amigos e conhecidos”, relata a jornalista.
A primeira reportagem, publicada a 9 de Janeiro de 2009, encorajou outras mulheres. Quebrou o medo e ajudou a formar o processo judicial contra Abdelmassih, condenado em Novembro de 2010 a 278 anos de prisão por dezenas de crimes de violação.
Um habeas corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal, em 2011, sob alegação de que não apresentava risco e não demonstrava disposição para fugir, manteve o médico em liberdade. Meses depois, cruzou a fronteira para o Paraguai, onde foi detido esta terça-feira.
Roger vivia em Assunção, numa vivenda de luxo de um bairro chique da capital paraguaia. As investigações do Grupo da Promotoria de combate ao crime organizado (Gaeco), com a ajuda das polícias Civil e Federal, permitiram localizar o exílio judicial dourado que partilhava com a mulher, uma ex-procuradora da República, e os dois filhos gémeos, de três anos. Dois dias depois, chegou algemado ao aeroporto de S. Paulo, onde foi recebido com gritos de “assassino” e “monstro” lançados por algumas das suas vítimas. Os filhos de Abdelmassih, que trabalhavam com ele na clínica de reprodução assistida, lamentam a herança que receberam: uma empresa arruinada e um apelido difícil de carregar.  
Quase do outro lado do mundo, a polícia tailandesa investiga um jovem japonês, filho de um gestor de sucesso na área das telecomunicações em Tóquio, por suspeitas de comandar uma “fábrica de bebés”.
Mitsutoki Shigeta, de 24 anos, é suspeito de ter tido pelo menos 12 bebés de várias mulheres “barriga de aluguer”, que depois traficava.
O caso começou a ser desmontado após a descoberta de nove bebés num apartamento em Banquecoque, há uma semana, depois de conhecido um outro caso em que um casal australiano abandonou um bebé com síndrome de down, que tinha sido concebido com recurso a uma “barriga de aluguer” na Tailândia, um “mercado” em expansão naquele país asiático.
Alertada por denúncias de vizinhos, a polícia encontrou, para além dos nove bebés, sete amas e uma mulher grávida que disse às autoridades ser “barriga de aluguer”. Shigeta conseguiu viajar nesse mesmo dia para Macau. Os seus defensores desmentem as acusações de tráfico humano, enquanto a polícia espera pelos resultados das amostras de ADN para avançar nas investigações, que permitiram já concluir que o herdeiro japonês visitou a Tailândia mais de 65 vezes desde 2012.
Entre a história do Brasil e a da Tailândia não há pontos em comum, a não ser o absoluto desprezo pela vida humana.

*Publicada no dia 22 de Agosto de 2014

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