quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Onde está o lixo? (crónica publicada no Novo Jornal*)


Numa altura em que um desfile de horrores cometidos e gravados pelo grupo jihadista Estado Islâmico entra pelos olhos adentro de milhões de pessoas em todo o mundo, imagens de alegria levaram à condenação de um grupo de jovens iranianos.
O grupo de seis jovens – três homens e três mulheres - foi preso em Maio deste ano, um mês depois de ter surgido na internet a dançar a música «Happy», do cantor norte-americano Pharrel Williams.
As autoridades iranianas não gostaram de ver mulheres a dançar ao lado de homens, ainda por cima, sem o hijab (véu islâmico), e ordenou a prisão de todos eles.
Durante o tempo em que estiveram presos, os jovens foram humilhados e obrigados a ir à televisão pedir desculpa por terem gravado o vídeo, alegando, em sua defesa, que desconheciam as intenções do realizador.
A confissão valeu-lhes a libertação, sob fiança, mas não os isentou de culpas. Foram agora condenados a seis meses de pena de prisão, além de um total de 91 chicotadas. O realizador do vídeo, Sassan Solemani, teve uma pena maior. Foi condenado a um ano de prisão.
A dureza das sanções por um acto inócuo e sem qualquer sentido maléfico gerou um coro de protestos. O Tribunal iraniano acabou por suspender a pena, caso os jovens não cometam crimes, no espaço de três anos.
Incrédulo o chefe da Amnistia Internacional no Reino Unido resumiu o sentimento que vai no espírito de muitos. “Prender pessoas porque dançaram uma música chamada «Porque eu sou feliz» é elevar as coisas a um novo nível de ironia bizarra, até mesmo para as autoridades iranianas mais autoritárias”, afirmou ao jornal britânico «Daily Mail».
Na descrição que acompanhou o vídeo, os jovens iranianos escreveram: “Happy é apenas uma desculpa para sermos felizes. Nós apreciamos cada segundo e esperamos colocar um sorriso no seu rosto”.
“É muito triste que estas crianças tenham sido presas por espalhar a felicidade”, lamentou o músico americano, num desabafo na sua página de facebook. Mas não há palavras capazes de descrever a injustiça que se abateu sobre eles.
Nos EUA, há outra imagem que deu que falar nos últimos dias.
O pai de Hudson Bond, que sofre de cardiomiopatia (doença que afecta os músculos do coração), tentou publicar no facebook uma fotografia do bebé de dois meses, mas viu a imagem ser recusada
O bebé, que está internado num hospital da Carolina do Norte, surge entubado e com aparelhos de assistência respiratória. Com um coração artificial, Hudson está na lista de espera para receber um coração verdadeiro.
O pai criou uma página no facebook para angariar fundos que ajudem a pagar os custos do transplante e os tratamentos que o filho precisa. Nela conta a história do filho e a batalha que trava para sobreviver. O relato é acompanhado de fotos do pequeno Hudson.
No dia 4 de Setembro, Kevin Bond recebeu um alerta da rede social, a informar que uma das fotografias que tinha publicado era “demasiado gráfica”. O facebook caracterizou a fotografia do bebé entubado, dentro da cama de hospital, como “assustadora, sangrenta ou sensacionalista”, acrescentando que “evoca uma resposta negativa”.
A rejeição da fotografia era ainda acompanhada com uma explicação: “Imagens que incluam acidentes, colisões automóveis, cadáveres ou corpos desmembrados, fantasmas, zombies e vampiros não são permitidas”.
Kevin reagiu com choque à decisão do facebook: “Fiquei muito magoado. Chorei. Ele é meu filho, adoro-o. Ter alguém que rejeita uma fotografia do meu lindo filho deitado numa cama de hospital a precisar de ajuda afectou-me”.
O pai ainda tentou entrar em contacto com a rede social. Nunca obteve resposta. O caso acabou por ir parar aos órgãos de comunicação social, depois de Kevin ter colocado um post (comentário) na página a explicar o sucedido e a dizer que o facebook “devia ter vergonha”.
“De todo o lixo que coloca sem parar na internet, uma foto do meu filho é onde se traça um limite? É nojento”, escreveu Kevin.
Desta história resultou um facto positivo. Em pouco tempo, os Hudson conseguiram arrecadar os 125 mil dólares necessários para manter o filho vivo e ainda reverteram alguns dos fundos a outra criança na mesma situação, graças à solidariedade que o caso gerou.
O facebook acabou por pedir desculpa e oferecer 10 mil dólares em anúncios para a campanha do bebé Hudson. Mas foi preciso os jornais e televisões meterem-se ao barulho.

*Publicada no dia 19 de Setembro de 2014

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