quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Demónios (crónica publicada no Novo Jornal*)

                                                             Tamis Rice com uma pistola de brincar, pouco antes de ser morto

Tamis Rice tinha 12 anos. No sábado, foi ao parque como tantas vezes fizera. Oito minutos depois tombou, atingido por dois tiros disparados por um polícia.
As imagens de uma câmara de videovigilância mostram a forma precipitada como a polícia reagiu, depois de ser chamada. Soube-se mais tarde, pela gravação divulgada pela polícia de Cleveland, que a pessoa que telefonou advertiu que a arma provavelmente era de brincar. Mas a actuação policial ignorou completamente a advertência, porque a central não informou os dois agentes desse pormenor. Tão pouco alertou que se tratava de um menor.
Mal a viatura da polícia chegou, o agente que ia ao lado do condutor saiu e, quase em simultâneo, disparou dois tiros. Tamis estava a caminhar na direcção do polícia, sem nada que indicie, pela análise da sua expressão corporal, que constituía uma ameaça. Mais uma vez, o cenário repete-se: o suspeito é de raça negra, os agentes não.
Num momento em que a sociedade americana questiona o uso da violência policial e que o rastilho se acendeu, depois da libertação do agente que matou Michael Brown, em Ferguson, no estado do Missouri, no dia 9 de Agosto, a morte do pequeno Tamis deita mais combustível para a fogueira.
Manifestações eclodiram em 170 cidades contra a decisão do grande júri de não avançar com as acusações contra o polícia que matou o jovem. Mais de 400 pessoas foram detidas e nem os apelos do Presidente Obama à ordem fizeram serenar os protestos, que atravessaram o Atlântico e chegaram a Londres, onde milhares de pessoas se manifestaram, esta quarta-feira, em frente à embaixada dos EUA.
O protesto londrino foi organizado por familiares de homens de raça negra que morreram nas mãos da polícia. Foi um gesto de solidariedade para com a família de Brown, mas também um alerta contra a actuação da polícia britânica que, em Agosto de 2011, matou Mark Duggan, de 29 anos, quando tentava detê-lo, provocando um dos maiores tumultos na história moderna do Reino Unido.
As manifestações e motins que, desde terça-feira, incendeiam cidades americanas em 37 estados são a expressão pública da revolta de uma população que se sente particularmente atingida e que não encontra justificação para os actos da polícia. Tão pouco justiça.
Numa tentativa de explicar os factos, o agente que matou Michael deu uma entrevista à ABC. Mas as explicações de Darren Wilson só aumentaram mais a tensão racial. Para além dos acontecimentos descritos não encaixarem na descrição feita por algumas testemunhas, Darren, nas declarações ao grande júri, disse que Michael “parecia um demónio” quando o mandou parar. Expressão que para os familiares do jovem morto revela uma falta de respeito pela sua memória. E que, ao mesmo tempo, reflecte os estereótipos que estão por trás da violência policial exercida sobre suspeitos de raça negra.
No meio artístico são várias as personalidades que fazem eco da sua revolta. À voz de Rihanna, John Legend, Pharrell e Stevie Wonder, juntou-se a da cantora Beyoncé, que partilhou, nas redes sociais, o comunicado dos pais de Michael, onde se manifestam “profundamente desapontados” por o assassino do filho “não enfrentar as consequências das suas acções”. Mas, mais importante, pedem aos que se revoltam para reencaminharem a sua frustração para “formas que possam trazer uma mudança positiva” para que, juntos, possam trabalhar para “corrigir o sistema que permitiu que isto acontecesse”.
No meio do sofrimento pela perda do filho, o apelo de Leslie McSpadden e Michael Brown revela enorme sabedoria: “Responder com violência não é solução. Vamos fazer mais do que barulho, façamos a diferença”.
Um apelo que deve ter ressonância, não só nos que se revoltam, mas nos que têm o poder de julgar este tipo de casos para que percebam, de uma vez por todas, que, com a absolvição, estão a legitimar a execução pública de pessoas. E a perpetuar a actuação de uma corporação que recorre à força, sem dar oportunidade de defesa.
Foi isso que aconteceu com Michael. É isso que se constata uma vez mais com a morte de Tamis. Não há outra razão. Um menino de 12 anos que sai para a rua com uma pistola de brincar não pode representar uma ameaça assim tão grande. Muito menos no país que autoriza armas a sério a partir dos oito anos de idade.

*Publicada no dia 28 de Novembro de 2014

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