sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As cartas (crónica publicada no Novo Jornal)

“- Que me trazes aí, pequeno?
- É para o carneiro, pai.
- Qual carneiro?
Como é que não compreendia? O garoto estava quase a chorar, mas conseguiu conter-se e explicou tudo àquele pai embrutecido pela miséria, escravo de uma fatalidade rigorosa e cruel.
Chaktour olhou o filho com espanto e piedade. Não disse nada. No seu espírito continuamente atormentado, já não havia lugar para uma nova dor. Sentia-se simplesmente esmagado pelo gesto do filho. Compreendia agora que nesta criança – da sua carne e do seu sangue – se estava a formar uma miséria consciente e real de que ainda não se tinha apercebido e que para sempre ficaria ligada à sua.
- A festa não é para nós, meu filho -, disse ele. – Nós somos pobres.
O garoto chorou, chorou amargamente.
- Não me interessa; quero um carneiro.
- Somos pobres -, repetiu Chaktour.
- Somos pobres porquê? – perguntou a criança.
A criança estava sempre à espera que lhe explicassem porque eram pobres. Deixara de chorar, mas ainda havia muitas lágrimas dentro de si, todas as lágrimas das crianças miseráveis cujos sonhos são traídos pela vida.
- Escuta, pequeno, vai-te sentar num canto e deixa-me trabalhar. Se somos pobres é porque Deus nos esqueceu, meu filho.
- Deus! -, exclamou a criança – E quando se lembrará ele de nós, meu pai?
- Quando Deus esquece alguém, é para sempre.”
Este excerto de «Os Homens Esquecidos de Deus», do escritor egípcio Albert Cossery retrata a miséria crónica do seu país que serviu de rastilho aos tumultos que se verificam há duas semanas nas principais cidades do Egipto.
As manifestações que derrubaram o regime de Ben Ali na Tunísia serviram de detonador a um povo abandonado, não por Deus, mas pelos governantes, pela sociedade que, no contexto do romance de Cossery, não abrange os pobres, a grande maioria da população. “
As personagens que o escritor egípcio, falecido em 2008, retrata em vários romances, conheceu-as “nas ruas pobres do Cairo” e hoje reclamam protagonismo para quebrar um ciclo esmagador de pobreza e fome.
Foi este povo “pacífico, que não sente ódio” e que “na pior das misérias, encontra o modo de ser alegre e sarcástico em relação ao mundo que o rodeia”, como o caracteriza Albert Cossery, que se cansou e disse basta.
“Para mim, viver vai significar combater. Desde agora e para sempre, combater os poderes bárbaros que fazem com que as crianças do povo andem descalças e que os homens do povo tenham que pedir esmola na rua, ou aceitem trabalhos de escravo que nem sequer lhes garantem o pão de cada dia”.
Albert Cossery, que segundo o escritor americano Henry Miller descrevia como nenhum outro “de forma pungente e implacável a existência das grandes multidões submersas”, atingindo “abismos de desespero, degradação e resignação que nem Gorki ou Dostoievski representaram”, tinha uma visão crua e quase profética da realidade. As suas narrativas e personagens encaixam no Cairo da sua infância, habitado por 1 milhão e 800 mil habitantes, como no Cairo sobre 30 anos de governação de Hosni Mubarak, povoado por “16 milhões de almas”, e que se cansaram da indiferença de quem os governa.
“- O governo – disse Rachwan Kassem – não tem endereço. Ninguém sabe onde mora e nunca ninguém o viu.
- No entanto, ele existe – disse Abdel Al.
- Quem sabe? – perguntou Ahmed Safa. – Não se tem a certeza de nada, neste mundo.
- Então, porque escreveste esta carta ao governo, se não tinhas a certeza da sua existência? – perguntou Bayoumi.
- Foram vocês que me pediram – respondeu Safa. – O que é que tenho a ver com isso? A morada do governo é uma coisa escrever a carta é outra.
- Vamos enviá-la para a esquadra da polícia de Manchié – disse Abdel Al. – Encarregar-se-ão de a remeter para o governo. Suponho que sabem o endereço”.
Depois da Tunísia e do Egipto, onde uma juventude instruída, mas sem perspectivas de futuro acordou, os cidadãos de outros países africanos começaram a escrever as “cartas” que os libertarão.

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